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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Resistência ao tempo. Causo de roça.

















Onde mora a resistência?

Seus pés eram protegidos pelos calos adquiridos no andar da vida.
Não precisava usar botinas para ir às roças. Talvez nunca tivera um par, nem de botas, nem de sapatos, nem de chinelos.
Descalço mesmo enfrentava os estrepes, os espinhos do chão que esperava a enxada que levava consigo para capinar o mato que ameaçava crescer entre as plantações.
Seus braços eram fortes o bastante para roçar os matos com a foice e rachar as lenhas com o machado.
As mãos também não rejeitavam a proteção dos calos.
Não teve tempo para deixar nascer a vaidade a não ser na medida de sua vida humilde. Seus adornos eram apenas o chapéu de palha que o defendia do sol quente e ao mesmo tempo enfeitava sua cabeça. Na cintura usava uma faca de ponta como fazia quase todo mundo naquela época. Era útil  como ferramenta para fincar em qualquer coisa, picar o fumo e fazer o cigarro de palha que vivia quase sempre apagado em sua boca. De vez em quando riscava a binga para acendê-lo.
Nas horas de folga seu companheiro era um porrete que o acompanhou a vida inteira.
Sua casa era uma choupana, casa de pau-a-pique, coberta com sapê, onde morava com sua família que o ajudava em suas poucas lavouras.
O sol castigou sua pele morena, mas não o bastante para fincar-lhe rugas profundas.
Era um homem sereno, realizava suas tarefas com calma. Nunca soube de sua pressa.
Numa das últimas vezes que o visitei, já velhinho, morando sozinho, tratava apenas de tomar conta de um pequeno sítio. Contava com mais de cem anos, ainda fumava seu espesso cigarro de palha, e era um benzedor.
A última vez que o visitei,estava num asilo. Sua voz muito lenta não escondia alguma saudade quando me viu, perguntando pelo meu pai, que já faleceu há muitos anos, lembrando-me de alguns momentos de minha infância na roça, lá pelos idos da década de 50. Dali para frente meus pais mudaram o destino para a cidade grande.
A vida foi esfacelando aos poucos aquela comunidade rural do Córrego São Pedro. Seus personagens mais antigos estão ficando cada vez mais escassos, restando apenas lembranças de um mundo que não existe mais. O mundo do engenho, da cana de açúcar, dos carros de bois.
Mundo da "bença papai e bença mamãe".
Mundo que se desamarrou do passado, que rompeu as referências, as estruturas de pensamentos, para dar lugar a um novo mundo, mas que ainda procura um caminho. Por mais que mude, continuam as tormentas, as incertezas, os "achômetros", para encontrar vida melhor.
O "seu Tinda", como era chamado o amigo, viveu até os cento e sete anos, conforme disse-me seu filho mais novo (74), em um encontro casual, recente. Passou seus últimos tempos no asilo onde lhe fiz a última visita, há mais ou menos quatro anos.
Não sei de onde veio tanta força para atravessar tantos tropeços por todos esses anos. Vivia a vida toda cultivando em terras alheias, nunca teve o seu próprio quinhão de chão...
...mas deixou muita saudade.

Evaldo

2 comentários:

dilita disse...

Olá Evaldo!

Tenho andado sumida, mas quando apareço aproveito para ler um a um todos os post duma e outras folhas (se o meu tempo mo consentir.)

Gostei de todos, tanta naturalidade,é comovente... Aprecio imenso da sua forma de escrever.

Voltarei! Entretanto o meu abraço.
Dilita

Evaldo disse...

Obrigado Dilita. Eu também aprecio seus escritos.