SEGUIDORES DE CAMINHADA

sexta-feira, 21 de março de 2014

Conto de infância: fantasias, ilusões

 Desenho ilusão, fantasia, por Evaldo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 



Na casa do vale.


A chaminé soltava pequena nuvem de fumaça na cor acinzentada vinda do fogão à lenha.
Ainda não estava na hora de preparar o jantar, mas as brasas mantinham-se acesas e brandas, apenas o bastante para aquecer algumas panelas, entre elas a de feijão cozido, a de broa de milho, e outra com água morna.
O fogão foi aceso bem cedinho para o café da manhã, logo no raiar do dia, junto com o despertar dos passarinhos que cantarolavam por todos os lados. Ouvia um trilar daqui, outro dali, como se estivessem a dar início a uma sinfonia. Em seguida todos apareciam afinados, anunciando que o dia ficara pronto para a nova lida.
Assim também viviam os moradores daquela casa antiga, cujo assoalho era feito de tábuas largas, menos a cozinha de chão de terra bem batida e nivelada, de modo que não soltasse resíduo de poeira. 
Sempre havia alguém levantando mais cedo, como os passarinhos. 
Colocava os primeiros gravetos de lenha no fogão que permanecia aceso o dia inteiro, às vezes até um pouco mais tarde, para aquecer também a casa, por causa do frio, antes que todos fossem  dormir.
Ainda era menino, mas já havia mudado para a cidade quando passei alguns dias de minhas férias escolares naquele lugar chamado Arruda, um pequeno vale do Córrego São Pedro onde vivia uma de minhas tias com sua família.
A noite chegava e logo apareciam de mansinho as estrelas no céu. Com a lua cheia clareavam-se as árvores, mostrando sombras sobre as relvas. 
Sem televisão e radio, apenas curtia as histórias que minha tia contava naquele vale encantado.
Entre as muitas histórias que ouvimos haviam as de assombração. Causavam suspense sim, porém, estavam longe de serem pesadas como são nos tempos atuais algumas versões dos contos de fadas que passam nas telas de cinema e televisão. 
Apertavam um pouquinho os corações infantis para exercitar a imaginação, somente isso. Afinal, a curiosidade era grande para saber dessas coisas.
Assustou-me uma folha meio avermelhada com formato de uma orelha grande, de animal. Apareceu no meio do mato, ao anoitecer, quando brincava no terreiro com meus primos e minhas primas.
Nem olhei para trás: corri para dentro de casa. Todos correram, acreditando no aviso daquele susto convincente. Sem dúvida era uma assombração.
Minha tia se encarregou de ouvir nossa história; todos tínhamos  um parecer sobre o caso, que foi elucidado somente no dia seguinte, pois, nenhuma criança se encorajou a sair de dentro de casa. 
O melhor de tudo foi que o assunto enriqueceu aquela noite com muitos outros casos contados, cada criança querendo dar mais expressão e autenticidade em sua história.
Há tantas coisas que emocionam a vida das crianças. Entre elas estão as boas histórias, mesmo as que são mescladas com fantasias, que naturalmente serão trabalhadas e dissolvidas na própria brevidade da infância. 


Evaldo de Paula Moreira

Conto de infância

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Paradoxos da vida


                                      Photo by Vera Candian Moreira




Paradoxos da vida



Somos  todos diferentes.
Sem dúvida, ninguém é igual.
Há uma busca constante de padronização das pessoas no mundo.
Classificação por faixa etária .
Por faixa de renda.
Por capacidade de consumo.
Também existe a pesquisa de povos para saber se são felizes.
Nem sempre são os que consomem mais.
Sabe aqueles pontinhos de luzes que vemos nos mapas pela internet?
Quanto mais houver concentração deles, maior é o indicativo de riqueza, de acordo com a quantidade da produção e do consumo de energia pela população.
Indica felicidade também?
Deveria indicar, mas...
Adoro usar a internet.
Olhar o céu com o telescópio...
Dirigir o carro com ar condicionado em boas estradas.
Mas sufoca o peito navegar em mares de violência como estão hoje os oceanos da vida.
Até os pássaros são agitados.
Na década de 50 o Brasil era mais rural do que urbano.
Tenho saudades daquele tempo quando podia andar descalço sob a chuva e brincar de escorregar no barro.
Refrescar os pés andando pelos córregos.
As árvores eram referências de localização das coisas ou pessoas:

- A casa fica lá perto do pé de ipê amarelo, diria alguém.
- Fulano está lá no pé de manga, diria outro alguém.

As águas eram limpas e potáveis por todos os lados.
Fumaça nos céus eram poucas: a da locomotiva do trem; a da chaminé do fogão de lenha...
Tudo bem que se apagou a luz de lamparina.
As luzes da cidade iluminam mais do que a luz da lua, mas ela ainda permanece lá no céu, fiel ao seu princípio de criação, iluminando com suavidade toda a Terra.
O problema é que com o progresso ficou mais perigoso andar no escuro.
Mas todo mundo, bandido e mocinho, é mais feliz hoje em dia,com o conforto que existe  e com as facilidades para executar qualquer tarefa.
Tanto o gato quanto o rato ficaram mais aparelhados, impiedosos e mais espertos.
O mundo venceu todas as barreiras, inclusive a da ética proposta por Aristóteles e Platão.
Adeus Aristóteles!
Adeus Platão !
O mundo está livre não só  para se expressar mas também para agir sem limites.
Não tenho nada contra a livre expressão.
O tempo da inquisição já passou.
Agora somos livres.
Até mesmo para acender novas fogueiras.
Fico meio confuso, às vezes, porque não tenho mais o pé de manga, nem o pé de goiaba para subir neles, como fazia na infância, embora nos dias de hoje possa passear de automóvel e viajar de avião.
A goiaba ficou maior e mais bonita, né? Mas é por causa dos agrotóxicos, eu acho.
E com a produção em alta escala ninguém precisa se preocupar mais em cultivar o seu próprio pedaço de terra.
Sempre haverá alguém para administrar tudo com mais eficiência. O problema acontece quando arrebenta algum dique e espalha veneno pra todo lado.
Mesmo assim não precisamos nos preocupar, não. Existem as multas, então, uma vez multado o infrator, fica tudo certo.
O Brasil já está punindo o crime do colarinho branco.
Estamos ficando iguais aos países civilizados.
Aí fica tudo certo mais uma vez.
Mas não quero ser catastrófico.
Desde pequeno ouço falar do fim do mundo. Ele teria acabado várias vezes, se vingassem algumas teorias e previsões.
Com tudo isso, ainda há como cuidar das flores, mesmo que seja num pequeno vaso, em qualquer espaço da casa.



Evaldo de Paula Moreira
Paradoxos da vida