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domingo, 30 de outubro de 2011

O Cacho de Banana Ouro - Conto de Roças






O cacho de banana ouro  

Dico era um homem jovem, forte, sem destino na vida, solitário, desconhecido para mim, naquela época de criança.
Apareceu certa vez no sítio dos meus avós, maternos, com o intuito de trabalhar em serviço temporário. Meus pais precisavam do serviço dele para “tocar as terras”, na parte que lhes cabiam cultivar as plantações, um pouco para consumo próprio, outro tanto para abastecer a cidade, fazendo assim, o quinhão de suas rendas.
Criança sabe pouco do mundo dos adultos, mas quando cresce, vai decifrando os seus significados. Às vezes, entretanto, os acontecimentos caem no esquecimento, assim sendo, o que passou, passou. Algumas lembranças são eternas, enquanto outras vivências ficam armazenadas no inconsciente.
Meus olhos seguiam o instinto do coração infantil, portanto não havia o que ocupasse mais o meu cérebro do que observar os ninhos de passarinhos, os pequenos peixes dos córregos, saborear os doces caseiros; subir nos pés de mangas e de goiabas; brincar com os gatos e cães; com outras crianças; correr atrás dos porquinhos, porque eles eram divertidos; jogar, ver e ouvir uma pedrinha zoar pelos ares, seguindo trajetos em formas curvas ou retilíneas; girar as tramelas das portas da casa dos meus avós, onde eu mais gostava de ficar, e lá ouvia os seus zunidos quando as fazia rodar batendo o dedo nelas: zuuummm, zuuummm...
As portas eram fechadas simplesmente com tramelas, naquela redondeza, cujo lugar era chamado de Córrego São Pedro.
Da vida dos adultos o interessante era olhar aquelas botinas com esporas, nos pés dos cavaleiros; os arreios de seus cavalos que balançavam o rabo para um lado e outro; os chapéus de palha e os bigodes das pessoas. Algumas, as mais velhas, gostavam de usar aquele “bigodão”, às vezes mesclado de cor branca e cinza, devido à idade.
As mulheres usavam saias compridas, cabelos longos... As mais idosas, cujos cabelos eram grisalhos, costumavam fazer com eles aqueles coques; as jovens os deixavam crescer lisos ou cacheados, descendo em suas costas.
Quando as pessoas sentavam para conversar, nos bancos compridos e sem encosto, que ficavam na sala, na cozinha, ou mesmo do lado de fora da casa, era um daqueles bons momentos, quando então me aconchegava ao colo de minha mãe, ou de uma tia. Não importava o que estavam falando, apenas curtia a conversa com a cabeça encostada entre o queixo e o pescoço delas para sentir o trepidar dos sons que saiam de suas gargantas.
A curiosidade ia aumentando com o passar do tempo para conhecer as novidades que apareciam, pois a vida não pára com suas surpresas.
Dentre elas, ficou a lembrança do Dico.
Ouvi alguém dizendo a meu pai que ele era um homem sistemático, de pouca conversa, que precisava saber lidar com ele. Meu pai preferiu olhar outros aspectos daquele semelhante, pois já o conhecia de outros lugares, inclusive já havia trabalhado para meus avós, pais de meu pai, num outro lugar chamado Parada Moreira. Nesse lugar havia um ponto de parada de trem, daí receber o nome de “parada” porque não chegava a ser uma estação completa, mas abrigava passageiros do campo e servia como suporte para escoamento de produção agrícola.
Num instante meu pai iniciou a construção de um cômodo de quatro paredes, coberto de sapé, e logo estava pronta a moradia provisória, uma pequena cabana, para o homem que chegara de surpresa, não para meus pais, mas para mim.
A vida para a criança acontece dessa forma: vai e vem de tudo quanto há em nosso complexo mundo. As coisas simplesmente fluem. Somente com mais idade é que começa a necessidade de saber certos porquês.
Fiquei curioso e ao mesmo tempo com receio de me aproximar do novo trabalhador, pois, de alguma forma captara a conversa dos adultos: ele é de poucas palavras.
Criança ouve as palavras proferidas pelos adultos que muitas vezes não percebem que ela a  processa com seus modos de ver, dando-lhes significado.
 Comentava-se que ele gostava muito de um tipo de banana de maneira pouco comum, a banana ouro. Mantinha sempre um cacho delas dependurado num dos cantos da parede. Era sabido que não gostava que entrassem no cômodo dele, não sei qual o motivo. Todo comportamento tem uma razão de ser, às vezes desconhecida pelo próprio agente. Talvez o Dico agisse assim para proteger suas bananas, ou então porque não gostasse mesmo de aproximação.
Mas, um dia, passando em frente à porta aberta de sua choça, vi que ele estava almoçando em seu pequeno caldeirão, tão comum nas roças mineiras.
Fiquei do lado de fora e falei qualquer coisa, sem esticar assunto. Na minha cabeça de criança não me passava como intenção ficar muito por ali, pois sabia que aquele homem não era de muita conversa. Foi, entretanto, receptivo, não dava muita trela pra criança, como já sabia, mas também não se revelou aquela pessoa turrona.
Naquele momento, única vez que tenho lembrança, durante o curto período que ele viveu lá, é que pude ver o pequeno cacho de banana ouro pendurado no canto da parede, olhando para elas do lado de fora da cabana.
Era um homem jovem e forte, diziam. Trabalhava para meus pais e ainda plantava abacaxi, num pedaço de terra cedido por eles. Na colheita, o vi levando uma fileira deles, sozinho, para vender na cidade. Andava a pé, não sei quantas léguas com os tais abacaxis nas costas. Para ele era fácil, creio, pois carregava também a fama de ser forte.
Mas, o homem, livre, terminada a tarefa de ajudar a plantar aquela safra de milho e seus abacaxis, despediu-se e fincou pé na estrada. Nunca mais tive notícias do desconhecido a não ser quando alguém contou a respeito de seu paradeiro distante daquele lugar, mas em outras roças, talvez morando em outra choupana e quem sabe, mantendo o costume de pendurar na parede, aquele tipo de banana.
Quando ele se despediu de nossas terras, foi então que pude entrar em seu quartinho vazio, contendo apenas uma cama, feita lá mesmo, de bambu.
Levou consigo, nas costas, além da roupa do próprio corpo, poucos apetrechos pessoais os quais cabiam com sobra no saco de embalar milho.
Deixou para trás o Adeus e um pequeno cacho de banana ouro, pendurado no mesmo canto de sempre, da parede da improvisada cabana.

Juiz de fora, 28 de outubro de 2011.
Evaldo de Paula Moreira
Conto de infância.