SEGUIDORES DE CAMINHADA

terça-feira, 13 de setembro de 2011

As calçadas e os ioiôs da vida - Conto



As calçadas e os ioiôs da vida.

As calçadas da minha infância, das ruas que ainda fazem quarteirões, aumentaram e as cidades cresceram.
Todas elas, algumas menos, outras bem mais, esticaram-se.
Multiplicam-se os habitantes, tal qual se reproduzem as células.
Em um dia desses, lembrei-me de uma das calçadas, do quarteirão onde morei. Havia uma falha na sua cimentação, ou seja, ficava aparente uma rodela de terra.
Aquela falha era excelente, porque era para lá que algumas vezes levava minhas bolinhas de gude e me somava a outras crianças, para um joguinho trivial, mas emocionante o bastante para marcar época e treinar a convivência, que com o passar do tempo se sofistica mais.
Existem calçadas de todo o jeito, das mais simples às mais largas e decoradas. Desde aquelas que às vezes se encobre de lama, até aquelas chamadas calçadas da fama.
Em todas elas o homem transita, carregando consigo, através dos tempos, suas lembranças.
Algumas servem para encontros diversos, mas todas são singulares.
Há lugares em que elas servem de estacionamentos para carros, mesmo não sendo feitas para isso.
Noutros, se comprazem com a freqüência das barracas de feiras.
Há também as solitárias que somente recebem as visitas da luz do sol e da lua e também das águas da chuva.
A calçada que freqüentei na infância ainda existe, porém, não tem mais, nela, o clarão de terra para que aconteça o joguinho de bolinha de gude.
Foi na calçada que conheci também o divertido ioiô.
Nelas, as crianças ficavam para mascar os seus chicletes que naquela época eram novidade. Iam para encontrar outras crianças; para comprar os pirulitos dos vendedores de rua, que também vendiam a raspadinha, feita de gelo raspado e com groselha.
As calçadas nas quais brinquei por alguns anos serviram também de caminho para ir ao grupo escolar.
Defronte a casa onde morei havia uma pequena escada, de três ou quatro degraus e nela às vezes me sentava com outras pessoas, crianças ou adultas e tudo se tornou vivência inesquecível.
Quanta coisa já se passou nesta vida, mas o ioiô é uma das belezas que continua atravessando o tempo, adoçando a vida que às vezes nos é indócil. Embora seja mais apropriado para criança, pode ser usado em qualquer idade. Ele é igual ao sorriso, que fica bem em qualquer rosto. Somente o coração triste tem medo de sorrir, de brincar com o ioiô. Sei que há momentos difíceis de sorrir, mas não devemos guardá-lo para sempre, no baú do tempo.

Juiz de Fora, 13 de setembro de 2011.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor