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terça-feira, 7 de junho de 2011

Conto de Roças, de Lamparinas...












Não sei como descrever algumas lembranças que aparecem em minha mente apenas como penumbra.
O milagre da modernidade apagou a luz de lamparina e me fez admirar a luz de Thomas Edison. Aconteceu quando minha família mudou da roça mineira direto para a cidade grande.
Foram muitos os encantos novos daí para frente.
Mas o envelhecido baú não está desprezado. Ainda reluz na memória. Nas lembranças dos chãos pisados pelos meus pés. Nas penumbras das lamparinas.
Lembrei-me de um lugarejo chamado Diamante. Tinha uma estação de trem antiga. Ainda existe, porém desativada. O chão não é mais de terra, é de asfalto. Ainda há algumas charretes por aquelas bandas. Só não sei se as ferraduras incomodam os cascos dos cavalos. Já vi sairem pequenas faíscas de fogo no atrito com o asfalto. Acho que eles ficaram contentes com a modernidade também, apesar de andarem se esquivando dos carros na rua, dando preferência de passagem a eles. Aliás, o carro antigamente era chamado de automóvel. Muito raros naquelas roças, naquele tempo, mas andavam bem, nas estradas de terra, parece-me.
Existia também um automóvel que chamávamos de automóvel de linha. Isso porque ele rodava sobre as linhas dos trens. Eram utilizados provavelmente por fiscalizadores das estradas de trem de ferro.
Mas naquele lugarejo conheci uma pequena farmácia. Antiga, ainda escrito na parede em português antigo: “Pharmacia”.
Havia também, no lugarejo, alguém que tirava dentes. Era conhecido como boticário. Acho que é por causa disso que fui lá. Tirar um dente de leite, com o boticão do boticário.
A “venda” era ponto de encontro.  As pessoas iam fazer suas compras e tomar uma cachaça. E a luz era de lamparina. Há pouco tempo estive lá e vi ainda a existência da “venda”, “alumiada” com a tal luz. É que o povo de algumas roças prefere pouca luz, pois o dia tem muita e a noite tem a Lua, que “alumia” os caminhos.
Lembro-me que numa dessas penumbras da memória aparece o meu padrinho. Era o farmacêutico antigo do lugar, franzino e envelhecido. Já quase não enxergava mais. Fui reapresentado a ele em sua casa pelos meus tios que me levaram lá, para conhecê-lo, aproveitando a caminhada ao lugarejo.
Tateou meu rosto com as mãos para “ver” como eu era e disse algumas palavras que não me lembro mais. Abençoou-me, como de costume se fazia com os sobrinhos, filhos, netos e com os afilhados. Era o “padrim” Zé Martins. Sua imagem está guardada na penumbra. Da memória.


Juiz de Fora, 07 de junho de 2011.
Evaldo de Paula Moreira                
Contos de Amor