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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Amanhecer


Vejo no amanhecer a Terra que sacode os viventes do sono bem dormido. Ou mal dormido. Ou não dormido.
Registros. Vistos. Ou não vistos.
Cenário que se abre. Aos risos. Sorrisos. Ou lágrimas. Ou indiferenças.
Luzes do sol. Ou sombras das nuvens.
Abraço da vida. Que aperta. Ou afrouxa o coração.

Juiz de Fora, 06 de fevereiro de 2011.
Evaldo de Paula Moreira
Devaneios

Refeição no pequeno caldeirão



Nas frestas da vida, sem querer, o olhar flagrou o destampar do pequeno caldeirão.
Era hora da “bóia” e aquele senhor que vivia solitariamente assentou-se sobre o cabo da enxada que deitou no chão para servir de banco.
Gesto comum, na hora do descanso, de quem capinava a terra para plantar ou manter o plantio limpo, livre dos matos que crescem rapidamente.
A fresta trouxe-me esta lembrança e me obriga às reflexões do milagre da vida.
Um soluço repentino tomou-me de assalto o sono, regando o rosto com lágrimas que umedeceram silenciosamente a face.
As frestas continuaram, propiciando visões mais largas, em descortinar que desnudam o palco das lembranças.
Desta vez a memória não trouxe imagens vividas no passado distante, mas recentes, lidas e vistas no transcorrer diário.
E vem a reflexão desafiando as coisas já estudadas e entendidas nas muitas opiniões, mas ainda não definitivamente respondidas. Por que, Deus Pai, Criador, há tanta maldade no mundo, no meio de tantos momentos sublimes, de milagres que sustentam a vida?
Com respostas trazidas do meu mundo de vivências, as quais não me satisfazem, por ser indagador exigente, registro aqui estas lembranças.
A fresta que me fez correr a lágrima foi aquela que permitiu ver destampar o pequeno caldeirão de almoço do trabalhador temporário daquele dia, naquela plantação de milho.
O pequeno caldeirão que o solitário homem levou para o trabalho continha somente angu para almoçar.
Com percepção e solidariedade, os demais trabalhadores repartiram com ele um pouco de suas refeições, com discrição, para não ferir e não envergonhá-lo. Mistério que na minha memória faz-me procurar razões do por que da escassez de alimento naquele pequeno caldeirão, justamente em região de terras produtivas, muito embora fosse época de êxodo rural. Eu já morava na cidade e estava a visitar parentes. Visitava meus tios e primos que posteriormente também mudaram para a cidade. E foi nas terras deles que vi o trabalhador levar de sua casa apenas angu para se alimentar. Momento que me fez emudecer a voz, igual aos outros, que tiveram a lucidez para compreender o outro, sem procurar razões, sem especulações, apenas servindo-o, completando seu pequeno caldeirão de almoço.

Juiz de Fora, 05 de fevereiro de 2011
Evaldo de Paula Moreira
Reflexões