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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cadê a coruja?




Quando passava pela estrada de terra à noite via no chão a sombra do barranco, a sombra das árvores... A nossa sombra. Todas feitas pela grandiosa luz noturna, da misteriosa Lua. Suas manchas, diziam as pessoas, formavam a imagem de São Jorge. Como ele foi parar lá, não sabia.
Peregrinos das rezas. Das festas santeiras noturnas. Andantes das estradas de terra.
Não é preciso cavucar muito a memória para me lembrar das coisas que me deixaram saudades. Parece que tudo acontece agora. Ainda vejo a Lua.
As corujas eram chamadas de carimbambas, ao invés de corujas e iam saltitando à nossa frente. Praticamente não as víamos. Só ouvíamos seus encantados gorjeios. Era um mistério, como tantos outros há, sem que se perguntasse o que era.
Isso, apenas é isso. Aquilo apenas é aquilo, com direito de ser.
Lembrar daqueles passos, trupicando com o dedão do pé, no chão frio, nas noites gostosamente frias é como assistir a um filme de contos de fadas produzidos em Hollywood. Com a vantagem de ter sido parte de contos próprios, sempre que possível, contados. Sem fadas, sem bruxas, mas com muitos mistérios, que eram mistérios, apenas porque eram. Mistérios... A vida, quanto mais se cavuca, sempre vai ter curiosos e misteriosos mistérios.
Lamento que a linguagem e os olhares antigos se tornaram envelhecidos, substituídos pelas novas visões e palavras cultas, o que há de se louvar, mas de se arrepiar, em muito pelo aumento das chulas, saídas não apenas da boca dos adultos, mas igualmente da boca de muitas crianças. Mas temos que nos render ao progresso do asfalto e ao uso dos sapatos, trocados de vez em quando para não se tornar cafona. Entretanto ainda vejo a Lua, mesmo não tendo mais São Jorge empinando seu cavalo sobre o dragão. Acho que foi ele quem fez aquelas crateras e sumiu.
As corujas, símbolo da sabedoria, ainda existem, porém quase ninguém liga para elas, a não ser nos desenhos animados.
Interessante é que nos filmes os animais falam a linguagem do homem e provavelmente um dia esse fato será esquecido pelas gerações futuras, lembrado apenas, com saudade, por quem é criança na época de agora. Mistério criado pelo homem, para ser também, desvendado, pelas crianças, adultas, no futuro.
De qualquer forma, a vida terá sempre seus mistérios, motivo para muitos sentirem saudades.

Juiz de Fora, 25 de maio de 2011.
Evaldo de Paula Moreira 
Contos de Amor

Um comentário:

Dom Quixote (Thomaz) disse...

Bela crônica, Evaldo. Muito bem escrita. è bom relembrar o passado, que ajuda a pavimentar as estradas para o futuro.