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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Refeição no pequeno caldeirão



Nas frestas da vida, sem querer, o olhar flagrou o destampar do pequeno caldeirão.
Era hora da “bóia” e aquele senhor que vivia solitariamente assentou-se sobre o cabo da enxada que deitou no chão para servir de banco.
Gesto comum, na hora do descanso, de quem capinava a terra para plantar ou manter o plantio limpo, livre dos matos que crescem rapidamente.
A fresta trouxe-me esta lembrança e me obriga às reflexões do milagre da vida.
Um soluço repentino tomou-me de assalto o sono, regando o rosto com lágrimas que umedeceram silenciosamente a face.
As frestas continuaram, propiciando visões mais largas, em descortinar que desnudam o palco das lembranças.
Desta vez a memória não trouxe imagens vividas no passado distante, mas recentes, lidas e vistas no transcorrer diário.
E vem a reflexão desafiando as coisas já estudadas e entendidas nas muitas opiniões, mas ainda não definitivamente respondidas. Por que, Deus Pai, Criador, há tanta maldade no mundo, no meio de tantos momentos sublimes, de milagres que sustentam a vida?
Com respostas trazidas do meu mundo de vivências, as quais não me satisfazem, por ser indagador exigente, registro aqui estas lembranças.
A fresta que me fez correr a lágrima foi aquela que permitiu ver destampar o pequeno caldeirão de almoço do trabalhador temporário daquele dia, naquela plantação de milho.
O pequeno caldeirão que o solitário homem levou para o trabalho continha somente angu para almoçar.
Com percepção e solidariedade, os demais trabalhadores repartiram com ele um pouco de suas refeições, com discrição, para não ferir e não envergonhá-lo. Mistério que na minha memória faz-me procurar razões do por que da escassez de alimento naquele pequeno caldeirão, justamente em região de terras produtivas, muito embora fosse época de êxodo rural. Eu já morava na cidade e estava a visitar parentes. Visitava meus tios e primos que posteriormente também mudaram para a cidade. E foi nas terras deles que vi o trabalhador levar de sua casa apenas angu para se alimentar. Momento que me fez emudecer a voz, igual aos outros, que tiveram a lucidez para compreender o outro, sem procurar razões, sem especulações, apenas servindo-o, completando seu pequeno caldeirão de almoço.

Juiz de Fora, 05 de fevereiro de 2011
Evaldo de Paula Moreira
Reflexões




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