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terça-feira, 21 de setembro de 2010

CHOQUE NO GALO DA ROÇA

Choque no galo.
Sou neto de um Moreira, no meio de tantos da família Moreira, moradores de um lugar chamado Parada Moreira. Nesse lugar havia uma parada de trem. Não era bem uma estação. Era uma parada porque naquelas roças os trabalhadores iam até a cidade de Ubá, no trem de passageiros e também havia escoadouro de mercadorias da agricultura produzida naquela região.
Meu avô morava num sitio mais distante, porém pertencente ao lugar Parada Moreira.
Meus pais moraram naquele pequeno sítio por um período quando meu avô Moreira, seguindo seus filhos e filhas, mais velhos, solteiros, tomaram destino a São Paulo.
Naquelas terras também faziam curvas a linha do trem.  Tinha também um pequeno açude, cujas águas tocavam um pequeno moinho de fubá. Na frente da casa, que não era grande, havia uma bela árvore de cutia, que fornecia gostosa sombra. Ficara conosco, também, não o querido cão Peri, da outra roça, do Córrego São Pedro, mas dois outros, um muito quieto e bravo, não nos deixava pegar-lhe, chamado Fidalgo e outro muito alegre, franzino, mansinho e dócil, chamado Fidalguinho. Meus pais trabalharam uns tempos na lavoura de fumo, porque aquela região era grande produtora do tabaco. Então pude conhecer o processo de plantio, colheita e estalagem do fumo. Estalagem era a retirada dos talos das folhas, depois de passarem por um lugar chamado "pindobas", onde ficavam penduradas até murcharem. Depois de retirados os talos as folhas eram emendadas umas às outras para fazer um cordão, chamado corda de fumo. Havia uma bancada de tábua para esticá-la, a qual ia sendo engrossada, depois de amarrada a um pau de fumo, roliço, comprido. Ficava preso a uma madeira chamada macaco, que era girado para torcer a corda do fumo até ficar no ponto. O rolo de fumo era colocado para secar e depois disso tinha-se o tal fumo de corda que era vendido pelas vendas afora, da região, ou mesmo exportado por compradores que passavam pela região fazendo as compras para abastecer as cidades e as indústrias.
Durou pouco tempo porque a lavoura de fumo nem as de alimento não compensava sua produção. Quase todo mundo foi para São Paulo e o fumo e as lavouras mais familiares continuam mesmo é no sul do país, com tendência a acabar com a plantação do fumo por causa da inconveniência de se fumar. Mas essa mudança está sendo feita aos poucos, pelo que sei, porque o impacto é grande naquelas regiões.
As grandes plantações de alimentos de Minas ficaram por conta do sul mineiro que ainda planta café e os grandes produtores de alimentos diversos se intensificam no Triangulo Mineiro.
Hoje, por essas bandas que nasci ficou mesmo é por conta de criação de gado, plantação de eucalipto e muito pouca gente morando nesses lugares. Uma, porque já não se acertam mais com as roças, poucos continuam com elas, outra porque os veículos automotores fazem o serviço mais rápido.
“E o choque do galo” aquele do início do conto, aconteceu no tempo do meu avô num dia de chuva. Chuva e vento que fazia tombar o capim. As chuvas, às vezes chegam rápido, pegavam os moradores desprevenidos. Naquele tempo, na década de 50 choveu muito, as terras eram muito produtivas e fofas. Os animais percebiam primeiro a mudança de tempo e tratavam logo de voltar das pastagens para seu abrigo. As galinhas, pintinhos e galos corriam para o galinheiro. Num dia, entretanto, um galo ficou para trás e ao correr para atravessar por baixo de uma cerca de arame, o céu riscou um relâmpago.
O “Corisco” caiu bem na cerca de arame onde atravessava o galo. Foi uma chama elétrica, pequena, correndo rápido nos arames da cerca e atingindo o galo. Nunca tinha visto aquilo.
Tombou o galo, a sacudir-se em desespero. Sua língua enrolou para dentro do bico.
Mas o que é a vida? Ela é solidária.
Meu avô, tão rápido quanto pode, debaixo da chuva, correu até ele e segurou o galo, abriu seu bico e mantive a língua dele esticada.
E "de vagarinho" o galo voltou a si.
Lembrança que me ficou guardada. A habilidade e a solidariedade com a ave, que gostávamos vê-la empinada no terreiro. O galo é um guardião do terreiro. Anda prá lá e prá cá, de olho nos possíveis intrusos.

Juiz de Fora, 21 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Conto de Amor