SEGUIDORES DE CAMINHADA

terça-feira, 7 de setembro de 2010

RAPA DE ANGU

Rapa de Angu.
No almoço, da roça mineira, aquela da minha infância, no cotidiano que recheia a vida em todo lugar, no fogão de lenha, pilotado pela minha tia, especialista na arte da cozinha, ficava a panela de pedra sobre a trempe quente de ferro.
Lenha acesa, a produzir fogo e fumaça que saía pela chaminé. Era o angu sendo feito, na panela de pedra, enfileirada a outras panelas, seguidas pela ordem do fogo mais quente ou mais brando. A cozinha era grande, a mesa também grande, que juntava os corações de avós, tias e netos. Para os que estivessem trabalhando, suando as camisas nas roças mais distantes, a comida era levada até lá, servidas nos caldeirões.
Portas e janelas ficavam abertas, compondo cenário ativo, vivo, como é a vida. A passagem na cozinha era livre, inclusive para as galinhas com pintinhos, frangos, frangas e galos, que também gostavam da convivência conosco, porque comidas para eles e elas eram supridas com o próprio solo da terra. Tão belas eram elas, galinhas, a ciscar aqui e ali, ensinando seus pintinhos o modo de conseguir alimento. Às vezes, quando achavam comida, com o ciscar o chão, não comiam. Faziam um cacarejo próprio para chamar os filhinhos, “pinicando” o chão, os quais iam correndo pegar o seu quinhão. O galo, também, matreiro, fazia o mesmo, para agradar a galinha. Era a escola da sobrevivência animal.
De vez em quando eram tocadas para fora de casa, com aquele tradicional “Xô, galinha”. Algumas, mais atrevidas, pulavam nas janelas para bisbilhotar a comida, mas eram logo enxotadas.
Porquinhos também ousavam trançar por ali, atraídos mais por meninos que lhes davam trelas.
Filhotes de qualquer animal são mais dóceis, portanto, fica mais fácil encurtar amizade. O tempo é que vai tornando-os arredios, devido aos esbarros que recebem. Enfim, todos treinam a vida, não é só o ser humano.
Mas, voltando ao angu, que era mexido com vigor e sem parar, com uma pá de madeira para não se empolar, era ele o grande esperado, quando servido à mesa.
Depois de retirado da panela, ficava a não menos esperada rapa de angu, tão apreciada naquela época, principalmente pelas crianças. Fubá de roça, angu de roça. Polenta é da cidade, parece angu, mas é diferente.
Rapa de mingau doce, e de arroz fresquinho, ou mesmo frio, também eram uma delícia.
A grande pedida, entretanto, era comer, eventualmente na cuia. Coisa apenas de crianças.
A cuia era feita com uma fruta arredondada, de casca dura, retirada da cuieira. Era cortada ao meio, raspada e secada. Transformava-se numa espécie de tigela. Tinha diversas serventias, na casa, mas o menino ficava de olho era naquele gosto, gostoso, diferente, de comer, sentado no banco da cozinha, abraçado nela.
Mas antes dela, viria a rapa do angu, de cor queimada, entranhada pelo sabor do sal.
Gosto catalogado no céu da boca, enciclopédia de consulta para saber o que pode vir.
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Juiz de Fora, 07 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor

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