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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

FLOR E PÁSSARO


Flores e pássaros.

Conheci as flores quando menino.
Aprendi a gostar mais, delas, depois de entendê-las, depois de adulto.
As casas das roças da minha região de menino eram todas ornamentadas com flores. Os terreiros eram sempre bem varridos, com vassouras feitas de capim e normalmente, na frente da casa, plantavam-se flores. Algumas pessoas faziam uma espécie de arco de flores, na entrada do terreiro.
Das mais variadas cores.
Gostava muito de ver umas que davam em ramas, nas beiras dos caminhos e nos barrancos das estradas. Eram nativas e suas cores variadas, muito lindas.
Mas as plantas caseiras que ornamentavam as casas eram cuidadas pelas mulheres. Homens não ligavam para essas coisas não. E as crianças seguem seus caminhos na vida, absorvendo os exemplos dos adultos.
Tinha uma tia que era muito cuidadosa com elas. Regava, podava, e vigiava meninos travessos que se aproximavam daqueles encantos. Animais e aves também gostam das flores, mas para comê-las.
Era uma bondosa tia, a que mais me pegava no colo. Eu fui um pouco arredio com aquele excesso de carinho. Quem ama flores, ama também, criança. Eu gostaria de saber disso antes. Arrependo-me muito, uma vez que ela já se foi para o céu, plantar flores lá. Que falta me faz sua presença. Depois de muitos anos, lidando com pessoas de todo o mundo em São Paulo é que fui aprendendo o quanto elas depuram a nossa sensibilidade. Li um artigo uma vez, o qual dizia que no Japão, a polícia de lá ensinava aos policiais lidarem com as flores porque para lidar com gente é preciso ter carinho também, sensibilidade.
Gente deve ser tratada como flor. Os policiais eram responsáveis por um determinado bairro, ou rua e todos os moradores os conheciam. Eram amigos sempre prontos a ajudar a comunidade. Confiavam neles como se confia na família.
E assim fui assimilando conhecimentos de outras culturas. Conheci o Budismo, onde o cultivo das flores é feita também pelos homens. Nas nossas igrejas eram mais as mulheres que se encarregavam dessa tarefa.
Na roça, os homens achavam bonitas as flores, mas não comentavam nada. Apenas aceitavam e conviviam com aquela realidade e respeitavam os jardins das mulheres. Pelo menos é o que me vem à lembrança. Depois fui descobrindo que o Brasil é um celeiro de flores, eram e são ainda exportadas para diversos países do mundo. Sempre via passar um caminhão baú com propagada das flores de Holambra, em São Paulo. Holambra é uma Cidade das Flores. Em Minas também temos a cidade de Barbacena, chamada Cidade das Rosas. Flores de exportação. Conheci as Hortências de Friburgo no Estado do Rio, e mais recentemente as Hortências da Serra Gaucha.
Mas, das roças de Minas, curto as lembranças daquela variedade imensa de flores rasteiras. Flores perfumadas das árvores. Flores, flores e mais flores... Quase me vêm lágrimas, ao escrever esse conto, por desejar tê-las abraçado, naquele lugar distante do meu passado. Mas já passou. São apenas lembranças queridas. De gente, de plantas, de animais, de aves, de pássaros, de peixinhos coloridos dos córregos.
Hoje, do meu terraço de apartamento, ainda curto as flores e o cantarolar dos pássaros. De manhã cedinho, ou ao entardecer. Durante o dia, ouço o barulho do homem, com suas máquinas, arrumando asfalto, ou batendo estacas, para fincar mais prédios. Não gosto, mas é a vida. Temos de respeitá-la.
Há pouco tempo pousou um bem-te-vi no beiral de meu terraço com ramos de mato no bico. Fixou-me o olhar por muito tempo como se estivesse avaliando se eu o importunaria ao fazer seu ninho, num ponto do telhado. Foi uma batalha imensa, de coração para coração, porque aquele ponto não era só meu. Havia de vencer, como venci com o coração, o direito da vizinhança. E assim, vi nascerem seus filhotes, dois, e um deles, o último, quando crescido, era pequeno e fraquinho. Ele caiu do telhado, no meu terraço. Se caísse daquela altura, na rua, morreria. Alimentei-o algumas vezes, pondo fubá molhado em seu bico. Treinei-o com pequenos vôos no meu terraço, até fortalecer-lhe as pernas, as asas. Eu e sua mãe cuidadosa, que vivia mais atrás do outro, que fugia para longe. Mas, voltava para ver o pequenino que ficara no terraço. Eu tinha medo que ela o abandonasse porque ela chamava, chamava, e ele não respondia. Às vezes ficava quietinho, escondido num vaso de flor.
Mas, depois de alguns dias, já fortalecido, o pequeno bem-te-vi levantou o vôo mais bonito que já vi. No último treino, foi o vôo da liberdade. No balanço de minha mão, esticou um vôo de mais de 100 metros, direto para a mata, para a copa de uma árvore. E sua mãe, não distraída, incrível, ela o viu e alcançou-o no meio do caminho, acompanhando-o até o pouso no galho. Ato maravilhoso, divino! Acompanhei com meu olhar e com o coração até o fim. Ela cantou tanto, tanto! Festejando o encontro e aquela grande façanha do pequenino. Parecia até gente. O filho mais velho e forte ainda não tinha alcançado vôo tão alto. E eu acompanhava lá do alto do terraço, aquela mãe cuidadosa que alimentava o filhote lá embaixo, com pequenos bichinhos. Dava-lhe liberdade para treinar seu vôo. Caísse onde caísse, ela estava presente incentivando-o.
Mas, o pequenino que ficara por último no ninho, teve mais fibra para ir longe, no primeiro desafio de voar.
Para mim foi mais um Adeus...
Desta vez, com aceno de alegria.


Juiz de Fora, 01 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor