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terça-feira, 10 de agosto de 2010

A CANECA DO TEMPO


A Caneca do Tempo.

Poderia dizer “o Túnel do Tempo”, mas esta viagem é da caneca de lata.
De manhã, cedo, ao levantar, lavava o rosto ao lado de fora da cozinha. Havia uma bomba d’água que a gente acionava seu braço, para baixo e para cima, e no vai-vem daquela sucção no cano que se afundava na cisterna, brotava a água límpida do fundo da terra.
Havia também a mina que jorrava água abundante numa telha, que corria sempre cheia, com a mesma medida, dia e noite.
Mas a bomba d’água ficava mais perto, proporcionando maior conforto. Naquela redondeza nem todos tinham daquela bomba, porque ela já evidenciava sinais de mudança dos costumes, sem rebaixar o valor do frescor das minas que de manhã cedo jorravam águas clarinhas e fresquinhas, até saía “fumaça”, de tão geladinhas.
Depois que aprendi a ficar de pé sozinho, não havia como não “bater as pernas”, indo da casa de meus pais, até a casa de meus avós, todos os dias. Às vezes por lá ficava, era perto. No caminho, aproveitava para olhar se havia peixe, na pequenina ponte onde passava um córrego por baixo.
Nas beiradas daquela estradinha de terra ia conferindo naqueles pequenos arbustos de frutas, goiabeiras, laranjeiras, etc., os ninhos de passarinhos, cada um mais diferente do que o outro. Ia quietinho para não assustar a mãe que ficava chocando os ovinhos, ou aquecendo os filhotinhos. Não podíamos chegar muito perto porque elas se assustavam e voavam. E se as mães não estivessem no ninho, nós não os tocávamos, só olhávamos. Nem nos ovos, nem nos filhotinhos, porque nos ensinaram que se fizéssemos assim, elas os abandonariam. Isso valia também para os filhotinhos muito pequeninos de qualquer outro animalzinho. Não havia gaiola em nossas roças. Herança de meu avô.
No fim da tarde, era comum a gente jogar fubá no terreiro, da porta da sala, para olhar aquela cena cheia de passarinhos.
Havia duas árvores altas, uma em cada lado da estradinha, na saída do terreiro da porta da sala, chamadas cedro.
Árvores altas, que abrigavam lá em cima dos galhos, duas casas de João de barro. Naquelas casas, depois de habitadas por seus construtores, alternavam casais de periquitos, bem verdinhos e canarinhos, bem amarelinhos. Era um brindar constante de diversos cânticos, todos trabalhando a seu modo, a sua vida, com certeza, cada uma com seus segredos.
E a caneca?
Minha avó era muito habilidosa, além de ser a “madrinha”, era também a matriarca. Olhar sereno, voz quase silenciosa. Dirigia a casa grande como se fosse um maestro de uma orquestra dirigindo as Quatro Estações de Vivaldi.
Se fosse preciso sabia fechar, não agressivamente, o cenho. Todos ali eram “bons músicos” porque sabiam respeitar aquele rosto sério, mas angélico.
E a caneca?
Era ela quem fazia as canecas de lata. Usava um rolete de ferro, martelo e prego. Com uma lata qualquer, de algum produto comprado na cidade, quando lá alguém ia, de tempos em tempos, aproveitava e fazia algumas canecas, para uso corriqueiro do dia-a-dia.
Cortava a cabeça dos pregos para servirem de rebite. Da tampa da lata cortava uma tira, dobrava suas beiradas para transformá-la em alça. Furava suas extremidades com prego e martelo. Modelava a alça com as mãos e o falado martelo. A lata era enfiada num rolete de ferro, onde aparava as beiradas dela com o martelo. Os furos da lata para colocar a alça do futuro caneco eram feitos num lado que havia no mesmo rolete, com martelo e prego. Depois era só encaixar o caneco com a alça e o rebite, no rolete de ferro e martelar até ficar firme, e então estava pronto o caneco.
Eu tinha um caneco de preferência, para tomar o café da manhã, naquela casa. Saudosamente, leite com angu, em pedaços, dentro do caneco. Ou café com broa. Café plantado, secado e moído lá mesmo, adoçado com rapadura derretida na água quente. O milho também, plantado e colhido, debulhado com o debulhador manual, transformado em fubá em nosso moinho, que com sua pedra de moer fazia canjiquinha ou fubá.
Tinha canecos e pratos esmaltados, ou de louça, mas chique mesmo era o caneco feito pela madrinha.
Angu com sal, quentinho e molinho, feito na panela de pedra, por uma tia, no fogão de lenha, servido como se fosse fatia de bolo. Que “trem bão”!
Mas deixa esse caso prá lá, depois conto noutro conto.
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Juiz de Fora, 09 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor


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