SEGUIDORES DE CAMINHADA

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O VISITANTE DIFERENTE


Alegria com a visita.

Lembro que a casa da minha avó, lá em Diamante, era grande.
Nós, crianças, brincávamos nela com liberdade, como pássaros livres a voar.
Brincávamos com as tramelas das portas e janelas, rodando-as sem parar.
Faziam um “zunido” ao serem giradas, e isto nos agradava.
Parávamos no tempo. Em cada porta e janela tinha uma tramela. E cada tramela era mais atrativa do que outra para rodar. Coisas de crianças.
Só mesmo vindo delas, imaginação para tirar proveito de coisas tão simples e conseguir alegria. Rodar tramelas...
Andávamos pelos assoalhos da casa, socando-os com os pés descalços, e extraia dali, sons, que somente nós sabíamos aproveitar. Os adultos da casa não implicavam conosco. Muito pelo contrário, nossos tios, tias e avôs nos abraçavam quase sempre que nos encontravam. Era uma alegria nos ver.
Nossos pés estavam quase sempre empoeirados, pois andávamos muitas vezes, descalços.
Escorregar no barro quando chovia era uma delícia.
Criança se divertia com qualquer coisa, e se encantava com qualquer conversa dos adultos.
Lembro-me de uma pessoa, um jovem adulto que um dia foi passear na casa da minha avó, que já era viúva nessas alturas.
Aquela pessoa prendera minha atenção e das outras crianças porque nos dava atenção e conversava conosco. Fazia desenhos, falava em outras línguas, o que para nós era novidade, pois nem sabíamos que existia possibilidade de falar de outro jeito.
Ele participou de uma guerra e dizia que era assim que falavam lá. Era bom ouvi-lo, apesar de não entender aquelas palavras e o que significava guerra. Sabia apenas que era coisa ruim.
Como éramos crianças, ninguém nos falou nada sobre a história de vida daquela visita repentina. Guardei apenas boas lembranças e curiosidade daquele momento, daquela visita agradável.
Alguns anos se passaram, quando estava morando em São Paulo e fui passear em Diamante de Ubá, minha terra natal.
Por qual surpresa, encontrei novamente aquela pessoa e foi então que percebi que os desenhos que ela fazia ainda eram os mesmos de anos atrás, e que os idiomas que falava era apenas um balbuciar de palavras sem significado.
Então fiquei sabendo que a guerra de que o interessante visitante participou foi a segunda grande guerra mundial e voltou de lá, enlouquecido, por isso, falava muitas coisas sem sentido, mas que não eram notadas por nós naquela época.
*****
*****
Juiz de Fora, 11 de setembro de 2004.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor