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quinta-feira, 20 de maio de 2010



Trem doido

Em muitos lugares de Minas Gerais, quando se quer dizer que uma coisa é boa, diz-se que é “trem bão”, ou: “é um trem doido de bão”.
Quando a coisa é ruim, diz-se: “ô trem, sô!
O trem também pode ser somente doido.
Basta que a coisa não esteja normal para ser trem doido.
Há muitas histórias sobre trem e certamente todo mundo sabe d’alguma.
No Paraná há uma estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá, passando por montanhas lindas. É um grande cartão postal do Estado. O trem é bonito de doido. Também na serra gaucha passa um belo trem, e também em Tiradentes e São Lourenço, aqui em Minas. Hoje são trens de turismo.
Onde nasci, nas roças de Minas, também passava trem.
A linha do trem fazia curvas suaves nas terras onde viveram os meus avós maternos, em Diamante de Ubá, município de Ubá, e também onde viveram meus avós paternos, no lugar chamado Parada Moreira, que também fica no município de Ubá.
Quando tinha perto de oito anos de idade, meus pais se mudaram para a cidade de São Paulo, no bairro Ipiranga, onde também passa trem.
Já andei muito sobre os trilhos daquela linha, brincando com os colegas, na década de 60, num lugar onde era várzea, com muitos campos de futebol. Também fui de trem, daquele bairro, até a cidade de Santos, numa viagem maravilhosa, pois o trem descia e subia a linda serra litorânea.
Via-se o mar lá do alto da montanha.
Foi uma coisa boa de doida.
Os trens sempre me foram familiares.
Pouco tempo depois de casado fui morar na cidade de São Gonçalo, no grande Rio, onde também passa trem.
Na cidade do Rio, para ir ao Morro do Cristo, há um trecho maravilhoso para ser feito de trem.
Atualmente moro com minha família na cidade de Juiz de Fora, onde também passa trem.
Há muitos episódios que poderia contar a respeito dos trens, ao longo de minha vida. Poderia falar da “Maria Fumaça”, cuja máquina é movida à lenha, do trem elétrico, do trem movido a óleo diesel, até dos bondinhos elétricos de São Paulo.
Lá em Diamante de Ubá, era comum esperar o trem passar, achegando-se à porta da cozinha, ou nas janelas dos quartos, na casa de meus avôs maternos.
De longe se ouvia o apito da Maria Fumaça.
Apitos curtos e apitos longos. Piuí!...piuí! Ou então, piuííííuuuuu...
Era como se estivesse avisando para sair da frente, pois o trem vinha com todo o seu peso e imponência. Deixava um rastro longo de fumaça pelos ares e o barulho que fazia, levava-nos a imitá-lo, como se ele dissesse repetidamente a frase: “café com pão, manteiga não, café com pão, manteiga não”...
Era o esforço do vapor d’água para movimentar a locomotiva.
Num certo dia ficamos curiosos, eu e as outras crianças que estavam na casa de minha avó, ao ouvir um apito fora do horário habitual.
Olhar o trem passar à distância era sempre uma alegria.
Naquele dia o trem era diferente, pois havia uma máquina rebocando outra, e essa outra estava toda “lambuzada” de barro.
Com certeza era um resgate de algum acidente ferroviário.
O fato é que em nossas cabeças de crianças, aquela cena não estava certa, então gritamos para que todos corressem a fim de ver a máquina, pois aquela era uma “máquina louca”.
Ela fugia dos padrões.
Não podia estar tão suja.
Era uma máquina puxando outra, muito suja.
Não havia vagão de passageiros, então só podia ser um trem puxando um “trem doido”, uma verdadeira “máquina louca”.
O trem ficou doido. Saiu do trilho e caiu no barro. Endoideceu!

Juiz de Fora, 08 de agosto de 2004
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor