SEGUIDORES DE CAMINHADA

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

BATATA DOCE NA ROÇA


Batata doce assada.
Os idos tempos queridos, floridos, adocicados ou salgados, são lembrados porque foram marcados pelos cinco sentidos do menino daquela infância.
Falo da batata doce, de pele amorenada, sapecada pelo calor da brasa da fogueira. Fogueira que era abrandada somente pela madeira já queimada, formando tições que o vento manteve acesos a fazer cinza e fumaça, apagadas com o sereno do fim da madrugada. Eram as fogueiras das festas, preparadas para os dias dos Santos.
Todos se mobilizavam na casa preparando ambiente para os grandes momentos. Ornamentavam os terreiros, limpando-os, deixando-os livres para as grandes comemorações santeiras. Fincavam mastro de madeira no chão para sustentar bandeira, enfeitada com tiras coloridas de papel para ornamentar o rosto do santo devotado daquele dia. Todos se preparavam com a elegância possível na roça, dentro da simplicidade do homem do campo. “Pó de arroz” nos rostos das mocinhas. Os rapazes também se preparavam. Meninos e meninas com cabelos bem penteados e bem vestidos.
E os convidados chegavam. Compadres e comadres, amigos, parentes e não parentes, compareciam já sabendo que o fogo seria aceso nas madeiras e nos corações.
Sanfoneiro, de longe, a sanfona pelas estradas ia tocando. A alegria era de todo mundo, de todos os viventes, até a passarada cantava e se movimentava pelos ares, em revoada. A brisa balançava as folhas das árvores e dos capins.
Cães também brincavam, atiçados pelo clima de alegria da criançada. Menos os gatos que se escondiam para não terem seus rabos puxados pelos meninos matreiros.
A coberta de sapé ou de folha de bananeira era feita de improviso para o baile, chamada tolda, lá na roça, ou “torda”, para ser mais fiel ao palavreado local. Palco divino, vivido naqueles momentos de “arrasta pé”.
E a fogueira desgastada pelas horas de ardência, fogo amansado em pura brasa, foi muitas vezes tentada atravessá-la descalços, sem, no entanto, aparecer fé e a coragem para conseguir a proeza. Depois de tanta festa e tanta alegria, aquecia-se a batata doce a qual era assada para transformar-se em sabor que somente igual brasa mansa da lenha pode produzir.


Juiz de Fora, 29 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ENCANTO

Encanto

Encantei-me, primeiro, com os pequenos córregos.
Depois com os riachos.
Depois com os rios caudalosos.
E assim, a vida, sem que eu soubesse, embalou-me em seus encantos, com todos os sentidos que me foram dados.
De alegria em alegria, de dor em dor, aos poucos, fez-me erguer a cabeça, os braços e os olhos para o alto.
E agora? Pergunto.
Então, vem a resposta:
- Calma. Não te surpreendas.
- Já aprendestes o que é bom, o que é ruim...
- Siga em frente, não tão vacilante, mas confiante.
- Sempre sou eu, a Vida.


Juiz de Fora, 27 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Poesia de Amor

sábado, 25 de setembro de 2010

POESIA - LIBERTAÇÃO


Libertação.

Na solidão da alma; na quietude do sofrer desencanto, somos tal qual semente que emerge do “sulco da terra”, a abrir-se em dor, libertária da flor.

Se o mundo é desencanto,
não haverá ninguém melhor do que ela, flor,
a recompor perdido encanto.

Somos a flor, a semente, primeiro,
que rompe o solo, chão duro ou macio,
da vida entrelaçada, com a dor e o amor.

 *****************
Juiz de Fora, 25 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Poesia de Amor

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

LEMBRANÇA, INFINITA ÂNSIA

Lembrança, infinita ânsia.
Quero conversar com alguém. Estabelecer, contudo, elementos de interseção.
Quero degustar melado. Ele me liga ao passado, à roça de minha infância. Faz-me lembrar do engenho de cana. Era gostoso estar com as pessoas, em torno do engenho, movimentado por junta de bois.
Quero comer goiaba. Ela me liga ao passado, à roça de minha infância. Era gostoso subir na árvore, partilhando com outras crianças momentos descontraídos, sem compromisso algum, apenas sendo parte daqueles momentos desinibidos e interagidos.
Quero ver um peixinho de aquário. Ele me liga ao passado, à roça de minha infância. Andava nas beiras dos córregos, com outras crianças, sem compromisso algum, apenas sendo parte daquele momento, sentindo a pureza da água e vendo o nadar dos peixinhos. Eram momentos de emoções pueris.
Quero ver uma bengala. Ela me liga ao passado, à roça de minha infância. Era comum retirar lenha da mata e também madeiras para fazer porretes. Propiciava alegria aos meninos participantes.
Quero brincar de pique. Ele me liga ao passado, à roça de minha infância. Era um bom momento de interagir com as outras crianças. Era de suar o corpo, despertava a alma, movimentava as células, fazendo sentir cada parte do corpo.
Lembrança do passado, da roça de minha infância. Saudade daquela inocência, daquela pureza, elos da alegria espontânea. Pulo de existência que jamais será esquecida.
***********
Juiz de Fora, 22 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Poemas de Amor

DESENHO LIVRO, SEMPRE AMIGO

*******************************************************************************************************

terça-feira, 21 de setembro de 2010

CHOQUE NO GALO DA ROÇA

Choque no galo.
Sou neto de um Moreira, no meio de tantos da família Moreira, moradores de um lugar chamado Parada Moreira. Nesse lugar havia uma parada de trem. Não era bem uma estação. Era uma parada porque naquelas roças os trabalhadores iam até a cidade de Ubá, no trem de passageiros e também havia escoadouro de mercadorias da agricultura produzida naquela região.
Meu avô morava num sitio mais distante, porém pertencente ao lugar Parada Moreira.
Meus pais moraram naquele pequeno sítio por um período quando meu avô Moreira, seguindo seus filhos e filhas, mais velhos, solteiros, tomaram destino a São Paulo.
Naquelas terras também faziam curvas a linha do trem.  Tinha também um pequeno açude, cujas águas tocavam um pequeno moinho de fubá. Na frente da casa, que não era grande, havia uma bela árvore de cutia, que fornecia gostosa sombra. Ficara conosco, também, não o querido cão Peri, da outra roça, do Córrego São Pedro, mas dois outros, um muito quieto e bravo, não nos deixava pegar-lhe, chamado Fidalgo e outro muito alegre, franzino, mansinho e dócil, chamado Fidalguinho. Meus pais trabalharam uns tempos na lavoura de fumo, porque aquela região era grande produtora do tabaco. Então pude conhecer o processo de plantio, colheita e estalagem do fumo. Estalagem era a retirada dos talos das folhas, depois de passarem por um lugar chamado "pindobas", onde ficavam penduradas até murcharem. Depois de retirados os talos as folhas eram emendadas umas às outras para fazer um cordão, chamado corda de fumo. Havia uma bancada de tábua para esticá-la, a qual ia sendo engrossada, depois de amarrada a um pau de fumo, roliço, comprido. Ficava preso a uma madeira chamada macaco, que era girado para torcer a corda do fumo até ficar no ponto. O rolo de fumo era colocado para secar e depois disso tinha-se o tal fumo de corda que era vendido pelas vendas afora, da região, ou mesmo exportado por compradores que passavam pela região fazendo as compras para abastecer as cidades e as indústrias.
Durou pouco tempo porque a lavoura de fumo nem as de alimento não compensava sua produção. Quase todo mundo foi para São Paulo e o fumo e as lavouras mais familiares continuam mesmo é no sul do país, com tendência a acabar com a plantação do fumo por causa da inconveniência de se fumar. Mas essa mudança está sendo feita aos poucos, pelo que sei, porque o impacto é grande naquelas regiões.
As grandes plantações de alimentos de Minas ficaram por conta do sul mineiro que ainda planta café e os grandes produtores de alimentos diversos se intensificam no Triangulo Mineiro.
Hoje, por essas bandas que nasci ficou mesmo é por conta de criação de gado, plantação de eucalipto e muito pouca gente morando nesses lugares. Uma, porque já não se acertam mais com as roças, poucos continuam com elas, outra porque os veículos automotores fazem o serviço mais rápido.
“E o choque do galo” aquele do início do conto, aconteceu no tempo do meu avô num dia de chuva. Chuva e vento que fazia tombar o capim. As chuvas, às vezes chegam rápido, pegavam os moradores desprevenidos. Naquele tempo, na década de 50 choveu muito, as terras eram muito produtivas e fofas. Os animais percebiam primeiro a mudança de tempo e tratavam logo de voltar das pastagens para seu abrigo. As galinhas, pintinhos e galos corriam para o galinheiro. Num dia, entretanto, um galo ficou para trás e ao correr para atravessar por baixo de uma cerca de arame, o céu riscou um relâmpago.
O “Corisco” caiu bem na cerca de arame onde atravessava o galo. Foi uma chama elétrica, pequena, correndo rápido nos arames da cerca e atingindo o galo. Nunca tinha visto aquilo.
Tombou o galo, a sacudir-se em desespero. Sua língua enrolou para dentro do bico.
Mas o que é a vida? Ela é solidária.
Meu avô, tão rápido quanto pode, debaixo da chuva, correu até ele e segurou o galo, abriu seu bico e mantive a língua dele esticada.
E "de vagarinho" o galo voltou a si.
Lembrança que me ficou guardada. A habilidade e a solidariedade com a ave, que gostávamos vê-la empinada no terreiro. O galo é um guardião do terreiro. Anda prá lá e prá cá, de olho nos possíveis intrusos.

Juiz de Fora, 21 de setembro de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Conto de Amor

domingo, 19 de setembro de 2010

Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes: Evaldo de Paula Moreira (Adeus…)





Estou grato pela postagem de meu conto "ADEUS". Sinto-me honrado em tê-lo junto a tantos outros, belos e expressivos escritos. Bela a paisagem escolhida para ilustrar a partida quando menino, tanto quanto belo é o Pavilhão Literário.
Outro registro, que não pode ficar esquecido, é o agradecimento a José Roberto Balestra, quem teve o olhar sensível e amável de postar o conto em seu blog: HTTP://zerobertoballestra.blogspot.com/.
Grato.
Evaldo.





Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes: Evaldo de Paula Moreira (Adeus…): "Pintura de Angela Kelly Topan Nó na garganta. Em qualquer lugar do mundo, a garganta humana denuncia quando uma pessoa está triste. Se tir..."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DESENHO COLORIDO

O QUE FAZER?

Vida!
Qualquer vida que eu siga, é a vida que dou conta de seguir.
Se a trilha que eu vir, eu seguir, só a seguirei porque a vi.
Este mundo que me cabe, cabe todo mundo.
Se aos outros mostro um novo mundo, não é outro esse mundo, senão meu particular mundo.
Ah! Vida.
Chega de me dizer o que fazer.
Deixa-me viver, o meu próprio querer.
Já sei o que é sofrer, já sei o que é saudade, já sei o que é a mentira, já sei o que é sorrir.
Não me enganes com o dizer que há mais o que saber, porque sei que há.
Vida, vida!
 Tu és rosca sem fim! Tal qual grande loja de roupas, com tantas para escolher.
 Meu guarda-roupa, entretanto, é pequeno, porque leva tempo ter que lavá-las e trazê-las de volta para usá-las, ou comprá-las e nem usá-las.
Contenta-te, vida, com minha aparência e obrigado por tudo que me ofertas. Não desprezo tua oferta, porque agora já sei que não posso usar tantas, delas, de uma só vez. Quando puder, espero saber usá-las.
Ofereça-as, vida, a quem as sabe usar e acredite precisar.
Deixa-me abastar com minha pequena mochila do saber, contanto que sinta seguro e crente no que fazer.

Juiz de Fora, 15 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Poesia de Amor