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sábado, 7 de agosto de 2010

O ENGENHO


O gosto da rapadura.

Quantos cenários se passam na vida!
E se cravam na alma, em recordações, velhas e novas emoções.
Sorte, que algumas passam, misturando-se no tempo, compondo momentos doces e amargos, e tudo há de se experimentar. Já por isso brindou-nos a vida com o tato e o paladar, além disso, o olhar.
O sentir, o avaliar, fica por nossa conta.
Lembrando lá longe, no passado distante da minha saudosa roça, ficou a rapadura, cujo caldo da cana era fervido no grande tacho, antes de virar aquela doçura, repito, rapadura.
O tacho ficava perto do engenho. Engenho, que moía a cana, premida nas engrenagens de ferro para transformá-la em garapa.
A garapa corria para o tacho acossado pelo calor da fornalha.
Minha avó, que era chamada carinhosamente de madrinha ao invés de vovó, administrando o serviço num dia determinado, disse:
-mexe mais depressa com a pá, Soninho, meu filho, prá não perder o ponto do melado.
A garapa, enquanto fervia, tinha de ser mexida com uma grande pá. De vez em quando era retirada uma espuma que dela surgia.
E daquele ponto, tão bem balanceado, saía o melado que era derramado nas formas de madeira. Ao resfriar, eis a maravilhosa rapadura.
No meio daquele balanceado do melado, retirávamos das beiradas do tacho um doce que chamávamos de puxa-puxa, consumido na hora, antes que endurecesse.
Doce momento do conviver.
Mas, a moagem da cana não era “meramente ficar por conta da distração”.
Havia o suor de uma dupla de bois que cediam seus pescoços a uma cangalha. E dela saía uma haste de madeira, que era puxada, para fazer girar os pesados tonéis da engenhoca.
Aquele era um momento de ajuntamento de toda a família. Todos participavam da empreitada: meu avô, avó, tios, tias, meninos e meninas. Não só para apreciar o doce da rapadura, mas também no engajamento da vida produtiva, que sempre exigiu fibra esticada do corpo e da mente.
Na frente dos bois, ficava um guiador, com uma vara comprida, de madeira, ou de bambu, para orientá-los, no seguimento da trilha rotineira, marcada no tempo pelos pés dos homens e dos bois. Fazia um círculo em volta da máquina moedora de cana que deixava calva a terra.
Os bois eram tão obedientes e treinados que não careciam fincar-lhes a ponta da “guia”, o bambu comprido, para que atendessem o chamado ao trabalho.
Era um compromisso, por intuição, já sabido, em troca do capim, da porção do sal que lhes era servida, junto também com o carinho de seus tratadores.
Nunca vi naquelas benditas roças um boi sendo sacrificado para servir a nossos pratos.
Também não éramos vegetarianos, mas o boi desfrutava de um respeito a mais do que os outros animais.
Morriam de velhos, ou picados por cobras.
Tinham nomes, e se algum deles saísse da linha tal qual menino teimoso, era advertido com o eco forte da voz do homem, cuja autoridade se impunha pela hierarquia natural da evolução.
Havia, mas não era comum usar de mais severidade com eles. Não me lembro disso ser comum.
...uma longínqua voz me vem agora, de um guiador, do tempo daquele já desmontado engenho:
- chega prá lá, “Evaldin”, os bois pisam em você...
Era a voz do guiador dos bois, à beira do engenho, que também sabia cuidar do menino.
Contando outro conto, um dia, de manhã, uma das vacas, daquela roça, a mais querida, por ser também mais velha e a que dava mais leite, a Mimosa, apareceu morta no terreiro, à porta da cozinha.
Quando uma das minhas tias se levantou e abriu aquela porta para começar as atividades do dia, pronto! Foi aquele “berreiro”.
Eu estava lá naquela hora e vi o movimento pesaroso de todos daquela casa, que me deixou igualmente comovido, embora não entendesse direito o que era aquela situação.
E esse conto, eu conto, à parte da história da rapadura, não para relembrar tristezas, ou remexer cinzas do tempo, gratuitamente, ou para apertar o coração de quem está lendo, mas para compartilhar um pouco de reflexão sobre a vida animal.
Chorosa, soluçando, repetia minha saudosa tia:
- mamãe, mamãe, olha mamãe!
- a Mimosa veio até nossa porta, mamãe!
- ela veio pedir ajuda mamãe! Para não...
Bem...
Hoje é muito mais fácil pensar em dó de animal, divagar a mente em torno da evolução; falar em equilíbrio da natureza, cogitar da possível inteligência animal, de sua dor e de seu afeto.
Estão escancaradas as verdades que nem todo mundo vê, ou vê, mas na dúvida, agarra-se aos argumentos de sua vivência.
A árvore sempre sentiu o golpe do serrote.
Tanto as plantas, quanto os animais, até hoje emprestam suas vidas para nutrirem nossos sonhos e sobrevivência, no silêncio de suas eternas tolerâncias.
Exagerados, indiferentes à dor do próximo, o homem ainda violenta até o próprio homem, sem perceber a dor do outro homem, assim como não percebe a dor dos outros viventes. Nossa humanidade ainda vive sacudida pelo escudo e pela espada.
E assim, a vida é como o tacho que fermenta o caldo da cana, a garapa. Produz a doce e macia rapadura, que também pode ser azeda e dura.
O sabor e a consistência dependem de nós que trabalhamos nesse grandioso engenho de burilar, todavia, a própria vida.

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Juiz de Fora, 06 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira.
Contos de Amor



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Um comentário:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Meu amigo Evaldo, o só desenho seu já conseguiu antecipar o que eu leria de maravilhoso, mostrar-me a voz da roça, um timbre tão doce que fica ecoando no eterno da efemeridade dessa vida por aqui. Basta ouvir o próprio coração... E você o faz tão bem.

Fico cada dia mais encantado com seus contos, Evaldo. Talento especial para síntese: suas lembranças da roça conseguem fazer a gente viajar pelos campos do coração, sentir o sabor de uma rapadura ainda quente, mesmo sem nunca haver visto um fabrico desses, mostrar-nos os verdes campos e a esperança que neles sempre viçam, todavia, são desvistos hoje em dia; o afã, a lufa-lufa, não deixam, diriam. Mas discordo: permitem sim. Você é um venturoso exemplo, Evaldo.

(continuo no e-mail...)


UM FELIZ DIAS DOS PAIS A VOCÊ, PRIVILEGIADO DONO DESSE CORAÇÃO TÃO HUMANO QUE LHE BATE AO PEITO!

abs