SEGUIDORES DE CAMINHADA

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O VELHO, O PORRETE E OS CÃES

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O porrete

A vida de criança é repleta de fantasias.
Muitos exercícios mentais são feitos com base, na maioria das vezes, nas atitudes de outras pessoas.
Sonhos são alimentados e articulados, até que sejam realizados ou esquecidos.
Usos e costumes são repassados dessa forma.
O que um faz o outro quer fazer, e melhor.
Naquela época de minha infância todos tínhamos um porrete.
Alguns, pequenos, outros grandes.
Muitos, bem lustrados, outros mais rústicos, dependendo do dono.
Seu uso era diverso.
Muito útil para defesa pessoal, principalmente para espantar animais soltos, em estradas desconhecidas. O comum era encontrar bois desgarrados da manada.
Usava-se também como adorno pessoal, compondo a postura das pessoas.
Certa vez, eu quis ter um porrete.
Ainda era criança, mas, chegara o momento de ter o meu.
Criança faz as coisas em conjunto, e então, eu e um primo, da mesma idade, nos alegramos da possibilidade de fazer os melhores porretes para nós.
Éramos amigos e partilhamos a realização daquele desejo.
Providenciamos um facão e nos embrenhamos mato adentro, procurando a melhor madeira, a mais reta possível e do tamanho adequado à nossa altura. E evidentemente, em nossas cabeças vinham imagens das pessoas usando porrete.
Conversávamos, criando imagens de ataques de animais bravos e o que mais ressaltava era nosso suposto heroísmo.
Entretanto, o que agradava mesmo era o pensar naquele novo brinquedo, porque, com ele, poderíamos socar um matinho aqui, outro ali, na beira das estradas, ou então girar o corpo sobre ele. Brincadeiras de menino. Motivo é o que não faltava para ser feliz com um mero porrete.
Nas conversas recheadas por férteis imaginações, discorríamos assuntos sobre isso e aquilo, inclusive sobre as pessoas que usavam porretes. Então, naquelas lembranças vieram episódios de pessoas boas e más.
Haviam pessoas que nos assustavam só em pensar nelas quando usavam um porrete. Não que elas nos fizessem mal algum, mas porque eram carrancudas e isso bastava.
Por ironia do destino, quando já adultos e morando na cidade, eu e o primo soubemos da desagradável notícia de que justamente uma daquelas pessoas das quais falávamos ao fazer o nosso porrete, caíra desfalecida para sempre, por idade avançada, sobre seu próprio porrete.
Foi o fim dos sonhos do velho homem que morava sozinho em uma choupana, acompanhado somente por dois amados e magros (iguais a ele) cães de caça. Inclusive seu inseparável porrete.


23/09/2004
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

OUVINDO A CHUVA

Era bom ficar deitado na cama sobre o colchão de palha, na roça, para ouvir o barulho da chuva caindo no telhado, quando criança.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

PINGO D'ÁGUA

Pingo d’água.
No silêncio de minhas lembranças estão as gotas de água de chuva caídas daquele teto de telha da casa antiga de meus avós, já derrubada, lá da roça.
O barulho suave daqueles pingos pingados no colchão de palha no quarto sem forro soa como conforto vindo do céu.
Era o próprio paraíso na Terra.
Silêncio na casa.
Chuva lá fora.
Colchões macios recheados com palha de milho.
Fofos.
Afofados com as mãos cuidadosas daquela tia que já se foi daqui.
Talvez tenha sido promovida pelos anjos dos céus para afofar as camas de lá.
Cada cama da casa, todo dia de manha, era ela quem cuidava.
Era um deitar macio, de menino que não sabia o que seria se preocupar com a vida. Nem sabia que na vida nem tudo seria delícia.
Mas o “Chuá” da chuva com o vento que ventava por todos os lados da casa ajudava a compor o cenário diurno.
Deitava por deitar. Era como sentar no sofá da casa da cidade. Lá era banco de madeira, comprido, que ficava na sala. Menino encosta-se em qualquer lugar.
Apenas para escapar “do molhar” lá de fora, muito embora debaixo das chuvas leves, brincava. Ouviam-se o balançar das árvores, e o caimento das águas sobre o telhado.
De vez em quando, uma gotinha d’água pingava na beirada do colchão, ou no assoalho de tábuas largas. As pequenas goteiras eram logo arrumadas, pois alguém cuidava disso.
Isso mudava o foco do olhar, e fazia a mente divagar, até outra coisa desviar esse olhar.
Hoje me faz lembrar que essa infância foi uma orquestra vivida, com os sons da natureza, retratando a vida. Fui o ator, o espaço foi o palco, a natureza foi composta por grandes músicos: o vento, a chuva, as cachoeiras, o Sol, a Lua. Deus ainda é o maestro.
Mas aquele colchão de palha era demais. Naquelas épocas não era comum ver pessoas reclamando de dores de coluna. Algum mau jeito aparecia, porém motivado pelas atividades diárias. O colchão era o primeiro remédio que o corpo procurava.
Fico pensando nos dias de hoje e comparando os tempos.
Vejo que há coisas que foram melhoradas, mas outras foram complicadas.
Os colchões atuais são muito bonitos. Objeto de desejo, principalmente para as dores de colunas que são muito mais do que naquela época de minha infância na roça, década de 50.
Existem as especificações técnicas, tamanho, densidade, etc. aprovadas pelos órgãos oficiais.
Já troquei vários colchões de minha casa. São caros, nas lojas, e alguns ainda estão fora do padrão, embora com selo de qualidade testada.
Esse foi e ainda é o meu mundo.
Como será o futuro do mundo de quem nasce hoje?
Certamente o colchão de palha não será preciso porque já foi banido das malhas do consumo. O coração quer aquilo que os olhos vêem.
Mas não adianta mais falar em colchão de palha. Não tem goteira. Tem sim, muita riqueza e muito mais miséria, mas isso é outro assunto.

Juiz de Fora, 24 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

BREVE HUMOR


Apenas para lembrar
humor antigo:

Rosnou o gato francês
pedindo comida:

"...filé minhon...filé
minhon..."

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Evaldo de Paula Moreira
Contos de Humor

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Beijo do Sol e da Lua


Beijo do Sol e da Lua.

Em todas as manhãs o Sol beija e Terra.
Esse beijo mágico acorda o homem.
Acorda o pássaro.
Acorda a planta.
Acorda todo lugar onde há vida.
Respeita a noite, sob a tutela da Lua, que guarda com a mesma tolerância,
O homem,
O pássaro,
A planta,
A vida.

Evaldo de Paula Moreira
Versos de Amor

sábado, 14 de agosto de 2010

MEUS PÉS DE BARRO


Chuva e terra: barro!
Na estrada de terra ficavam as listras fundas das rodas de madeira circuladas por aros de ferro.
De vez em quando acontecia um atoleiro. E o jeito do homem da roça lidar com o costumeiro trabalho de correr as estradas, em tempos chuvosos, era colocar mais tração nas rodas conforme o peso que os carros de bois carregavam. Arroz, feijão, milho e toda ordem de alimentos. Era tração animal: os bois, claro.
Andavam em duplas e quanto mais peso, mais duplas, acorrentadas umas às outras, fazendo fila. E o carreiro tinha de conhecer os bois, um por um. O tamanho, a força, mais lento ou mais apressado, mais manso ou mais impetuoso, para formar a dupla certa, no lugar certo. Chapéu de palha na cabeça, pés descalços e lá vai o carro de bois, guiado pelo carreiro e seus companheiros. Não faltava o canto das rodas, preparadas para anunciar a passagem do carreiro.
E o menino se divertia com a natureza, mais brincava do que trabalhava. Era um treino, para ser um futuro bom carreiro. Mais companhia do que trabalho.
Que era bom amassar barro, isso era.
Quando íamos fazer tijolos para construir uma casa, o processo era amassando a terra com os pés, misturando com água até formar uma liga. A terra tinha de ser tirada do lugar certo, para dar a liga certa, depois eram repassadas às formas, para serem secadas ao sol, que se transformavam em tijolos.
O contato com a terra era a coisa mais natural do mundo, então, para o menino escorregar no barro de brincadeira, que delícia! Tudo no seu momento, claro. Diferente da cidade, onde menino não pode ficar descalço de jeito nenhum porque logo adoece. Ou mesmo adulto.
O terreno para plantar arroz, era pantanoso, precisava sempre estar descalço. Arroz do brejo. Usava-se botina também, o que protegia os pés, mas o barro sempre estava presente, inclusive nas mãos.
Banho? De bacia, com sabão, redondo, feito na roça mesmo.
Sobe morro, desce morro, os pés enfrentavam o barreiro feito pelas chuvas, ou então a poeira, deixada pelo sol.
Não tinha outro jeito, a terra queria sempre estar conosco, onde quer que fossemos.
É nossa amiga a vida toda e ainda nos abriga, em nosso fim de vivência terrestre.
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Juiz de Fora, 13 de Agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor

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terça-feira, 10 de agosto de 2010

A CANECA DO TEMPO


A Caneca do Tempo.

Poderia dizer “o Túnel do Tempo”, mas esta viagem é da caneca de lata.
De manhã, cedo, ao levantar, lavava o rosto ao lado de fora da cozinha. Havia uma bomba d’água que a gente acionava seu braço, para baixo e para cima, e no vai-vem daquela sucção no cano que se afundava na cisterna, brotava a água límpida do fundo da terra.
Havia também a mina que jorrava água abundante numa telha, que corria sempre cheia, com a mesma medida, dia e noite.
Mas a bomba d’água ficava mais perto, proporcionando maior conforto. Naquela redondeza nem todos tinham daquela bomba, porque ela já evidenciava sinais de mudança dos costumes, sem rebaixar o valor do frescor das minas que de manhã cedo jorravam águas clarinhas e fresquinhas, até saía “fumaça”, de tão geladinhas.
Depois que aprendi a ficar de pé sozinho, não havia como não “bater as pernas”, indo da casa de meus pais, até a casa de meus avós, todos os dias. Às vezes por lá ficava, era perto. No caminho, aproveitava para olhar se havia peixe, na pequenina ponte onde passava um córrego por baixo.
Nas beiradas daquela estradinha de terra ia conferindo naqueles pequenos arbustos de frutas, goiabeiras, laranjeiras, etc., os ninhos de passarinhos, cada um mais diferente do que o outro. Ia quietinho para não assustar a mãe que ficava chocando os ovinhos, ou aquecendo os filhotinhos. Não podíamos chegar muito perto porque elas se assustavam e voavam. E se as mães não estivessem no ninho, nós não os tocávamos, só olhávamos. Nem nos ovos, nem nos filhotinhos, porque nos ensinaram que se fizéssemos assim, elas os abandonariam. Isso valia também para os filhotinhos muito pequeninos de qualquer outro animalzinho. Não havia gaiola em nossas roças. Herança de meu avô.
No fim da tarde, era comum a gente jogar fubá no terreiro, da porta da sala, para olhar aquela cena cheia de passarinhos.
Havia duas árvores altas, uma em cada lado da estradinha, na saída do terreiro da porta da sala, chamadas cedro.
Árvores altas, que abrigavam lá em cima dos galhos, duas casas de João de barro. Naquelas casas, depois de habitadas por seus construtores, alternavam casais de periquitos, bem verdinhos e canarinhos, bem amarelinhos. Era um brindar constante de diversos cânticos, todos trabalhando a seu modo, a sua vida, com certeza, cada uma com seus segredos.
E a caneca?
Minha avó era muito habilidosa, além de ser a “madrinha”, era também a matriarca. Olhar sereno, voz quase silenciosa. Dirigia a casa grande como se fosse um maestro de uma orquestra dirigindo as Quatro Estações de Vivaldi.
Se fosse preciso sabia fechar, não agressivamente, o cenho. Todos ali eram “bons músicos” porque sabiam respeitar aquele rosto sério, mas angélico.
E a caneca?
Era ela quem fazia as canecas de lata. Usava um rolete de ferro, martelo e prego. Com uma lata qualquer, de algum produto comprado na cidade, quando lá alguém ia, de tempos em tempos, aproveitava e fazia algumas canecas, para uso corriqueiro do dia-a-dia.
Cortava a cabeça dos pregos para servirem de rebite. Da tampa da lata cortava uma tira, dobrava suas beiradas para transformá-la em alça. Furava suas extremidades com prego e martelo. Modelava a alça com as mãos e o falado martelo. A lata era enfiada num rolete de ferro, onde aparava as beiradas dela com o martelo. Os furos da lata para colocar a alça do futuro caneco eram feitos num lado que havia no mesmo rolete, com martelo e prego. Depois era só encaixar o caneco com a alça e o rebite, no rolete de ferro e martelar até ficar firme, e então estava pronto o caneco.
Eu tinha um caneco de preferência, para tomar o café da manhã, naquela casa. Saudosamente, leite com angu, em pedaços, dentro do caneco. Ou café com broa. Café plantado, secado e moído lá mesmo, adoçado com rapadura derretida na água quente. O milho também, plantado e colhido, debulhado com o debulhador manual, transformado em fubá em nosso moinho, que com sua pedra de moer fazia canjiquinha ou fubá.
Tinha canecos e pratos esmaltados, ou de louça, mas chique mesmo era o caneco feito pela madrinha.
Angu com sal, quentinho e molinho, feito na panela de pedra, por uma tia, no fogão de lenha, servido como se fosse fatia de bolo. Que “trem bão”!
Mas deixa esse caso prá lá, depois conto noutro conto.
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Juiz de Fora, 09 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor


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sábado, 7 de agosto de 2010

O ENGENHO


O gosto da rapadura.

Quantos cenários se passam na vida!
E se cravam na alma, em recordações, velhas e novas emoções.
Sorte, que algumas passam, misturando-se no tempo, compondo momentos doces e amargos, e tudo há de se experimentar. Já por isso brindou-nos a vida com o tato e o paladar, além disso, o olhar.
O sentir, o avaliar, fica por nossa conta.
Lembrando lá longe, no passado distante da minha saudosa roça, ficou a rapadura, cujo caldo da cana era fervido no grande tacho, antes de virar aquela doçura, repito, rapadura.
O tacho ficava perto do engenho. Engenho, que moía a cana, premida nas engrenagens de ferro para transformá-la em garapa.
A garapa corria para o tacho acossado pelo calor da fornalha.
Minha avó, que era chamada carinhosamente de madrinha ao invés de vovó, administrando o serviço num dia determinado, disse:
-mexe mais depressa com a pá, Soninho, meu filho, prá não perder o ponto do melado.
A garapa, enquanto fervia, tinha de ser mexida com uma grande pá. De vez em quando era retirada uma espuma que dela surgia.
E daquele ponto, tão bem balanceado, saía o melado que era derramado nas formas de madeira. Ao resfriar, eis a maravilhosa rapadura.
No meio daquele balanceado do melado, retirávamos das beiradas do tacho um doce que chamávamos de puxa-puxa, consumido na hora, antes que endurecesse.
Doce momento do conviver.
Mas, a moagem da cana não era “meramente ficar por conta da distração”.
Havia o suor de uma dupla de bois que cediam seus pescoços a uma cangalha. E dela saía uma haste de madeira, que era puxada, para fazer girar os pesados tonéis da engenhoca.
Aquele era um momento de ajuntamento de toda a família. Todos participavam da empreitada: meu avô, avó, tios, tias, meninos e meninas. Não só para apreciar o doce da rapadura, mas também no engajamento da vida produtiva, que sempre exigiu fibra esticada do corpo e da mente.
Na frente dos bois, ficava um guiador, com uma vara comprida, de madeira, ou de bambu, para orientá-los, no seguimento da trilha rotineira, marcada no tempo pelos pés dos homens e dos bois. Fazia um círculo em volta da máquina moedora de cana que deixava calva a terra.
Os bois eram tão obedientes e treinados que não careciam fincar-lhes a ponta da “guia”, o bambu comprido, para que atendessem o chamado ao trabalho.
Era um compromisso, por intuição, já sabido, em troca do capim, da porção do sal que lhes era servida, junto também com o carinho de seus tratadores.
Nunca vi naquelas benditas roças um boi sendo sacrificado para servir a nossos pratos.
Também não éramos vegetarianos, mas o boi desfrutava de um respeito a mais do que os outros animais.
Morriam de velhos, ou picados por cobras.
Tinham nomes, e se algum deles saísse da linha tal qual menino teimoso, era advertido com o eco forte da voz do homem, cuja autoridade se impunha pela hierarquia natural da evolução.
Havia, mas não era comum usar de mais severidade com eles. Não me lembro disso ser comum.
...uma longínqua voz me vem agora, de um guiador, do tempo daquele já desmontado engenho:
- chega prá lá, “Evaldin”, os bois pisam em você...
Era a voz do guiador dos bois, à beira do engenho, que também sabia cuidar do menino.
Contando outro conto, um dia, de manhã, uma das vacas, daquela roça, a mais querida, por ser também mais velha e a que dava mais leite, a Mimosa, apareceu morta no terreiro, à porta da cozinha.
Quando uma das minhas tias se levantou e abriu aquela porta para começar as atividades do dia, pronto! Foi aquele “berreiro”.
Eu estava lá naquela hora e vi o movimento pesaroso de todos daquela casa, que me deixou igualmente comovido, embora não entendesse direito o que era aquela situação.
E esse conto, eu conto, à parte da história da rapadura, não para relembrar tristezas, ou remexer cinzas do tempo, gratuitamente, ou para apertar o coração de quem está lendo, mas para compartilhar um pouco de reflexão sobre a vida animal.
Chorosa, soluçando, repetia minha saudosa tia:
- mamãe, mamãe, olha mamãe!
- a Mimosa veio até nossa porta, mamãe!
- ela veio pedir ajuda mamãe! Para não...
Bem...
Hoje é muito mais fácil pensar em dó de animal, divagar a mente em torno da evolução; falar em equilíbrio da natureza, cogitar da possível inteligência animal, de sua dor e de seu afeto.
Estão escancaradas as verdades que nem todo mundo vê, ou vê, mas na dúvida, agarra-se aos argumentos de sua vivência.
A árvore sempre sentiu o golpe do serrote.
Tanto as plantas, quanto os animais, até hoje emprestam suas vidas para nutrirem nossos sonhos e sobrevivência, no silêncio de suas eternas tolerâncias.
Exagerados, indiferentes à dor do próximo, o homem ainda violenta até o próprio homem, sem perceber a dor do outro homem, assim como não percebe a dor dos outros viventes. Nossa humanidade ainda vive sacudida pelo escudo e pela espada.
E assim, a vida é como o tacho que fermenta o caldo da cana, a garapa. Produz a doce e macia rapadura, que também pode ser azeda e dura.
O sabor e a consistência dependem de nós que trabalhamos nesse grandioso engenho de burilar, todavia, a própria vida.

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Juiz de Fora, 06 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira.
Contos de Amor



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terça-feira, 3 de agosto de 2010

MEU CÃO HERÓI


Meu cão, meu herói.

Dentre todas as saudades que me seguiram, não posso esquecer a do cão azulado, de mancha branca no peito e no pescoço.
Era o Peri, daquele mundão de roças, que abrigava a casa principal da minha avó materna, onde moravam também meus tios e tias, mais as outras casas, incluindo a de meus pais. Ele era o meu Peri.
Era um amor dividido, sim, porque quando me juntava a meus primos, naquela casa, somava-se a nós, o Peri, na empreitada de passar o dia, aproveitando o soprar do vento. Vento que fazia pequenos rodamoinhos e nos deixava questionando que mistério era aquele.
Eram o bééé, de um cabrito saltitando, o cacarejo duma galinha, pássaros pousando cá e acolá.
Gente assobiando e o roçar das enxadas, capinando o mato macio daquela época, preparando o sobrevir das plantações.
E o Peri corria conosco, como se a procurar uma caça.
Atirava um torrão de terra no mato e atrás dele ia nosso cão.
Quando o chamava, vinha, vinha, ele! Alegre, confiante, de rabo curvo para cima e orelhas em pé; boca entreaberta, língua pendendo para um lado, pingando saliva, para receber nosso abraço.
Mais tarde, já “em saudade” na cidade, viria amar outros cães, mas na televisão.
E quando via aqueles cães, lembrava que também tinha um, que ficara para trás, vivendo então, tutelado por outros abraços.
Nas telas das TVs, quem foi criança há muito tempo, igual a mim, lembra os seriados da Lassie, do Rin-Tin-Tin e do Lobo, o cão do seriado brasileiro Vigilante Rodoviário.
Entre uma realidade e outra, a da TV e a da roça distante, estava o prenúncio da realidade virtual.
Uma das lembranças ainda está aquecida no meu peito pelos tantos abraços que dei no querido animal.
É a feliz lembrança, de minha infância, daquele cão chamado Peri.

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Juiz de Fora, 03 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor


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domingo, 1 de agosto de 2010

O SONHO DO CHAPÉU


Chapéu.

Engraçado, olhar a vida.
Sentir a vida.
Desejar as coisas da vida.
Fazer as coisas.
Acompanhar o moderno.
Sentir-se incomodado por não saber, sabe-se lá o quê.
Sentir-se incomodado por não ter, sabe-se lá o quê.
Querer, querer, querer...
Em qualquer lugar, sempre querer.
Há medo em querer e não ter.
Mas também há alegria em querer e ter.
Quando era menino, lá na roça, andava de calça curta, segurada com aquelas tiras chamadas suspensório, que ainda existe também nas cidades.
Os adultos usavam cintos, calças compridas e chapéus de palha.
E o meu objeto de querer, era o chapéu.
Ser gente grande, adulto.
Um dia, passando de charrete com minha família numa estrada da redondeza, para minha surpresa, vi um menino, numa outra charrete, usando chapéu. E era chapéu de palha, de menino, próprio para menino e não para adulto.
Eu ainda não conhecia. E ninguém sabia que igual aquele eu também queria.
Às vezes eu usava chapéu, mas era dos adultos, só por brincadeira.
Era um treino do querer ter.
E durante a vida vim treinando o querer.
Ora tendo, ora não tendo.
Ora também, não querendo.
É bom querer, mas nem tudo.

O querer é um sono profundo, com sonhos diversificados.
Mais tarde vi nas telas dos cinemas, tantos chapéus, dos mais variados, de todos os povos.
Cada chapéu satisfazendo o querer, o sonho saído das cabeças de tantos quanto os usavam.

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Juiz de Fora, 01 de agosto de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor
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