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domingo, 25 de julho de 2010

PARADOXO DA LOUCURA


Sabedoria de um doido.
Certo dia, estava a visitar um conhecido numa clínica psiquiátrica.
Lá, conheci outro paciente, bancário.
Nos hospitais, há pessoas com transtornos mentais diversos.
Há depressivos, alcoólatras, dependente de drogas em geral, transtornos mentais de toda ordem.
Mania de grandeza é uma delas.
Visitando pessoas no hospital psiquiátrico, acabei aprendendo muita coisa.
É muito comum encontrar supostos “generais”, ou pessoas que se julgam de “alto gabarito”, nessas clínicas.
Então, fazemos continência para uns, anotamos receitas para resolver problemas, etc.
Muitos dos pacientes querem coisas.
Maços de cigarros, dinheiro, reservas na cantina e etc. A princípio atendia alguns pedidos.
Com o passar do tempo, depois de várias vezes, observei que algumas delas faziam negócios internos com o que ganhavam, ou então eram enganadas pelos próprios colegas, porque, para alguns, o que doávamos, sumiam.
Então, naquele dia, naquela visita, fiquei conversando também com o paciente bancário.
Era muito rápido no raciocínio e tinha resposta para tudo. Quase me deixou “doido”. Era jovem, um pouco mais que eu. Seus neurônios eram elétricos demais.
Depois de conversarmos bastante, como pessoas não doidas, ele começou analisar minha personalidade, dizendo que eu era um tipo que seguia padrões hierárquicos. Em outras palavras: eu era pessoa bem empacotada no sistema social, obediente a todas as regras, bem comportado. Disse que eu via as pessoas sob rótulos, isto é, a leitura que eu fazia delas era de acordo com a imagem que elas se apresentavam.
Assim, se alguém estava de jaleco, devia ser um médico; se estava de paletó e gravata deveria ser um advogado; se estava com as mãos sujas de terra e uma ferramenta na mão, seria um jardineiro.
O que ele quis dizer é que eu as qualificava e colocava em ordem hierárquica. Para ele, entretanto, as pessoas são simplesmente pessoas e por trás das aparências o que existe é tão somente um ser humano, igual a todo ser humano.
Jovem gênio e louco, doido e tão sábio!
Se ele estava vivendo uma paranóia de idéias, isso não vem ao caso, o importante é que ele me atingira com reflexões significativas sobre a vida.
Jovem, ainda, eu pouco sabia sobre essas coisas e admirava aquele outro mais jovem do que eu, tão sábio.
Cheguei a ficar envergonhado de mim mesmo e aquele assunto passou a incorporar a minha vida, a fazer de mim um ser com mais o que pensar sobre o mundo, fato que sempre me interessou. Dediquei-me em pensar um pouco mais sobre sistemas sociais, até descobrir, ao longo dos anos, que somos, na maioria das vezes, escravos deles. E muitas vezes vivemos em círculos de idéias, prisioneiros de nós mesmos, semelhante à história de Machado de Assis, no seu livro, O Alienista. Ou então em alguns momentos caímos em “Armadilhas Conceituais”, que conforme a Filosofia Clínica, grosso modo falando, é a mesma maneira de viver em círculo, incapaz de enxergar as realidades externas de nosso mundo interior.
Talvez, o ordenamento das coisas devesse se inverter. Às vezes não sei se os loucos estão dentro ou fora dos muros.

Juiz de Fora, 04 de setembro de 2004.
Evaldo de Paula Moreira
Conto Paradoxos da Loucura
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