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segunda-feira, 26 de julho de 2010

FATOS SUTIS DA NATUREZA ANIMAL


Apelo da galinha.

Foi minha mãe quem me contou.
O episódio aconteceu com meu avô.
Tenho poucas lembranças dele porque quando ele faleceu, eu era muito pequeno.
Lembro-me daquele homem esbelta, cabelos e barba branca.
Usava uma bengala para se apoiar ao andar, pois, além de ser costume, já estava curvado pela idade.
A maioria das coisas que sei sobre ele, foram-me contadas.
Lembro-me apenas do carinho e zelo que todos tínhamos por aquele velho homem, tido como bom e sábio naquelas paragens, naquele longínquo grotão de Minas.
Disseram-me que ele apontava a bengala para as estrelas e dizia coisas do futuro do mundo. Não por ser culto, muito letrado, mas por saber observar as mudanças que ocorriam naquele lugarejo, chamado Córrego São Pedro.
E, disse minha mãe: num dia de domingo, na expectativa de preparar o macarrão do almoço, alguém teria de pegar um frango ou franga para ir à panela.
A massa do macarrão era feita em casa, assim como a massa de tomate.
Então, aquele era um dia de macarrão com frango.
Resolveram por alcançar uma galinha. Uma determinada galinha, mais farta de carne.
As aves eram criadas soltas, em nosso terreiro, que volteava a casa. À noite iam para o galinheiro, sozinhas, e a porta do galinheiro, dormia fechada, por causa dos predadores noturnos. Conviviam conosco, despreocupadas, como se fossem parte da família. Comum era mirar mais seus ovos, do que suas carnes.
Para cumprir a proposta, puseram-se ao já esperado cerco à galinha, mas a dita, escolhida, se esquivava mais do que menino brincando de pega-pega.
Já esbaforida, exausta, corre para se esconder na cozinha da casa.
Cercada, sem trégua, busca sua última alternativa: num ligeiro e curto vôo, pousa no peito de meu avô!
De asas abertas, fica! Foi como abraçá-lo, em pedido de socorro. Parece que ela sabia que ali tinha amor para defendê-la.
Bico aberto, coração disparado de medo e cansaço.
Atônitos, perplexos, meus tios pararam.
Os olhares dos que estavam na cozinha se dirigiram a meu avô, esperando sua reação, pois, mais do que a galinha, conheciam seu espírito de piedade.
E, a pedido dele, a galinha sobreviveu.
E morreu de velha.
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Juiz de Fora, 26 de julho de 2010.
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor
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Um comentário:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Eis aí o que chamaria de "sabedoria galinácea", Evaldo. Então fica acertado: d'agora pra frente, que ninguém mais chame a outro de cabeça de galinha... (rsrsrs)