SEGUIDORES DE CAMINHADA

sexta-feira, 30 de abril de 2010




Esquenta não! Moleque!

Manhã fria... Tempo enfumaçado pela neblina. Era garoto e acabara de por os pés na rua. Rua fria; tempo úmido.
Devagarzinho, outros meninos iam-se achegando ao lado de fora de suas casas.
Era o começo do dia, em São Paulo, no bairro Ipiranga.
A rua estava ali, e era o nosso palco.
Esfregavam-se as mãos para aquecer-se do frio.
Normalmente, esticava-se a manga da blusa para cobrir a mão, esquivando-se do frio.
Da boca e das narinas saiam “fumaça” ao respirar ou falar qualquer coisa.
Era o ar quente que saia de nossos pulmões e se chocava com a temperatura externa.
Alguns usavam luvas e cachecol, mas esse luxo não era para todos.
A rua, sim, palco e testemunha no tempo.
Eram os anos 60.
Formávamos “patotinhas” para conversas triviais.
Era comum brincar de mocinho e bandido, pois comuns também eram os filmes de Bang Bang, nas TVs, ainda preto e branco, e nos cinemas, os quais eram muitos, e grandes, naquela época.
Não havia quem não quisesse usar uma estrelinha de xerife no peito, um chapéu e um par de revolveres de brinquedo na cintura.
Quem não tinha revolver de brinquedo, fazia do dedo, um, mas não ficava sem brincar.
Às vezes brincávamos de “lutas” de espadas, a maioria feita de madeira por nós mesmos.
O importante era brincar.
As turmas não se misturavam. Os mais novos brincavam com os mais novos.
Os jovens tinham outros comportamentos: reuniam-se para conversas e passeios noturnos, nos parquinhos de diversões, muito comuns.
As crianças de um quarteirão não se misturavam com as de outro.
A convivência com os adultos era amistosa.
Estranhos eram vistos com reticências.
Lembro-me de um jovem, figura estranha, que de vez em quando aparecia no quarteirão, e era visto com indiferença, pois para nós, naquela época, ele parecia um doido, que não merecia crédito. Aparecia ele e em tom alto falava: “Isquenta, não! Muleque!”! Mas ninguém tinha mexido com ele. Era um hábito repetir essa frase.
E assim passava as horas, sem enturmar-se, e a falar sozinho olhando para o chão.
Andava despretensiosamente pela rua e sempre repetia a frase, como se fosse ordem: “Isquenta, não! Muleque!

Juiz de Fora, 30 de julho de 2004
Evaldo de Paula Moreira
Contos de Amor

Um comentário:

Ricardo Vélez-Rodríguez disse...

Caro Evaldo,

Obrigado por me pôr em contato com o teu blog, forma muito válida para a expressão humana. Ora, a expressão poética, como dizia Heidegger, é a forma arquetípica de comunicação entre os homens. Gostei do desenho livre, naif, que traz a poesia da simplicidade. E, também, gostei do poema. Vamos continuar a trocar figurinhas nestes espaços cibernéticos. Abraço com os meus parabéns.