SEGUIDORES DE CAMINHADA

sexta-feira, 16 de abril de 2010










Cenário que passou

Pés descalços na estrada de terra.
Era noite num dia qualquer, no passado de tenra idade.
Tempos em que se era feliz e não se sabia.
A luz da noite vinha da lua.
Clareava tal como manto sagrado os vales e os morros, que os pés
descalços subiam e desciam, a deliciarem-se com a carícia do pó da estrada
e o frescor dos ventos suaves.
Coaxar daqui e dali, numa conversação intensa dos anfíbios, saibam-se lá,
quais idiomas falavam.
Era tão suave, à noite, tanto quanto as vozes daqueles grupinhos de
andarilhos que vinham das rezas.
Somavam-se a esta vida em comum, o trilar dos grilos.
Doce sinfonia, dirigida pelas corujas que saltitavam e gorjeavam à
nossa frente, como se a guiar nossos passos. Dirigiam a orquestra das
vozes de todos os seres vivos de hábitos noturnos. Comunhão perfeita da
natureza que premiava a vida com uma diversidade imensa de prazeres em
todos os momentos.
Como falar da noite, sem falar da manhã?
Que delícia de chão frio, ainda úmido de orvalho caído da noite, com
certeza para não deixar os verdes campos com sede.
Como falar da noite e da manhã, sem lembrar os dias aquecidos pelo
sol que fazia suar os corpos dos vertebrados de hábitos diurnos, liberando
suas toxinas pelos poros, mantendo saudáveis suas vidas?
Já cedinho, o cantarolar dos pássaros de cores variadas.
Flores diversas a encantar o olhar, cujos perfumes...
Meu Deus! Onde e quando estamos?
Vamos aprender a viver com o calcáreo e o asfalto?
O burburinho da cidade encanta nossas vidas?
As caixas de sons são bem modernas, mas onde está o respeito a
quem sabe ouvir o som da natureza? O cheiro das fuligens substitui os
perfumes que ela exala?
Os homens ignoram a beleza dos ouvidos, porque não sabem
distiguir os sons.
Ignoram a visão, porque não sabem distiguir os cenários; o olfato,
porque não sabem distinguir o que é perfume; o paladar porque não sabem
distinguir o que é sabor; o tato, porque não conhecem a sensibilidade do corpo.
Muitos não sabem o que é meditação, não conhecem a saudade, não sabem tecer o amor.

Juiz de Fora, setembro de 2008
Evaldo de Paula Moreira
Poemas de Amor